quarta-feira, 17 de novembro de 2010

letra maiúscula ponto final

-Vou me casar.
-Ai, que besteira. Para de piada uma hora dessa da noite, já bebi demais e posso acreditar em qualquer coisa dita agora.
-Eu vou me casar.
-Já não falei pra parar de graça? Que saco. Me dá um cigarro aí. Ali em cima.
-Me caso daqui um mês.
-Você tá falando sério?
-Desculpa.
-Você tá falando sério?
-Desculpa.
-Eu perguntei se você está falando sério, responde.
-Sério.
-E quando você decidiu isso?
-Importa?
-Claro que importa.
-Não, não importa.
-Claro que importa. Pra mim.
-Os detalhes sempre te importam. Puro mimo.
-Não começa atacar que isso aqui não é um ringue é no máximo um circo. Não tô certo?
-Claro que está certo. Você erra?
-Não. Bem, quase nunca.
-É, às vezes eu me esqueço que transo com uma pessoa perfeita.
-Bingo. Isso. TRE-PA-DA.
-Por favor, não começa.
-Claro que eu começo.
-Tem uns 15 dias.
-Por que demorou tanto pra contar?
-Não sei. Não achei que fizesse diferença.
-Mas é claro que faz diferença. Faz toda diferença.
-Eu imaginei.
-E por que não contou antes?
-Medo.
-Não me venha com essa. Os medos são meus.
-Nossos.
-Nossos? O que são nossos? O que tem nossos? Nossos. Nossos.
-Por que eu tinha certeza que você ia fazer esse drama todo? Se desequilibrar...
-Desequilíbrio? Claro que não. O fato de você se casar não me deixa instável. O que me irrita é saber que eu só fiquei sabendo disso quinze dias depois da decisão. Entende?
-Desculpa.


22:02 – Pausa
22:09 – Me perdoa
22:11 – Abraço
22:14 – Choro
22:16 – Beijo
22:22 – É.


-Daqui uns minutos eu vou entrar num ônibus e ir embora, não quero levar essa sua frieza na minha mala.
-Alguma coisa que eu diga vai fazer diferença?
-Não, o que me incomoda é essa frieza... esse gelo.
-É o que eu tenho. (longa pausa). Você foi feliz comigo?
-Fui.
-Vai ser feliz agora, no casamento?
-Vou.
- Espero que sim. Mentira, a gente sabe que é mentira. Quero muito sofrimento, bordoadas, sangue e péssimas trepadas.


(pausa)


-A gente não tem culpa.
-Eu tenho.
-Não, não tem.
-Tenho. Concorda comigo, porra.
-Tem. Mas a gente pode continuar se vendo...
-É isso que você tá propondo? Cansei das raspas e dos restos.
-Não foi isso que eu quis dizer.
-Foi isso que você disse.


(pausa. chuva.)


-Olha que toró.
-Vai fazer menos baderna do que a que tá aqui dentro.
-É pra me comover?
-Te comove?
-Por que não comoveria?
-Por que você tá me propondo um caso extraconjugal antes de se casar?
-Será?


(dois cigarros. uma lata de cerveja)


-Você precisa ir.
-Embora daqui ou daí?
-Daí onde?
-De você.
-Dos dois lugares.
-Vou sentir sua falta.
-Eu também vou.
-É melhor assim.
-É melhor assim.
-Sim é.
-Pode ter certeza. Toma cuidado.
-Você também se cuida aqui. Cautela nas relações!
-Eu tenho, você sabe.
-Sei.
-Fica feliz lá.
-Vou ficar. Preciso ir... tchau.
-Ó, leva meu guarda chuva.


(a porta bate...

(André Fabrício)