sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

UM HOJE QUE NÃO ACONTECE

UM HOJE QUE NÃO ACONTECE
Camila Aguilera
Da série de textos do passado.

Enquanto acendo um desses cigarros – esses mesmos que muitos dizem que vão me causar câncer um dia – eu olho com esperança pro telefone em cima da mesa. De vez em quando chego a levantar e ir até a janela pra ver se você não aparece. É sexta-feira e é tão diferente daquela sexta-feira há quase um ano atrás em que você me ligou quando eu já dormia e me fez sair pra te encontrar. Eu me lembro ainda da sua roupa naquele dia, do seu jeito, do céu sobre nós. E todas as lembranças que tenho sobre você, nós, seus sorrisos, suas falas, suas aparições inesperadas me enchem de saudade, nostalgia, por vezes raiva. Outras e tantas vezes de tanto amor. O cigarro se deteriorando no cinzeiro e eu nem consigo fazer o esforço de pega-lo, afinal você odeia cigarros e eu, bom eu nem gosto tanto assim deles, mas me serviam pra aliviar a tensão em dias assim como este em que você não liga e nem aparece e nem passa na frente da minha casa. Se você ligasse hoje eu nem teria acendido esse maldito cigarro que agora faz feder meu quarto. Se você tivesse ligado hoje eu teria dito muitas coisas bonitas, algumas feias talvez, mas eu teria dito tanta coisa. Se você tivesse ligado hoje eu teria dito qualquer coisa como a falta que você me faz, qualquer coisa como eu fico infeliz sem você em dias como hoje, em dias como ontem, em todos os dias desde que te conheci e você se fez presente dentro de mim, qualquer coisa como você conseguir ficar longe sabendo que tudo que faço é pensar em você, qualquer coisa como. Por que diabos você nunca liga? Se você tivesse vindo até mim hoje – nem sei por que ainda considero essa hipótese provável – eu teria te abraçado forte e ficado assim por um tempo indefinido, pois me faltariam palavras, exatamente como naquele dia que eu te pedi que ficasse uma pouco mais e eu não sabia o que dizer e então te abracei e logo depois você sorriu. Se você tivesse vindo hoje, talvez eu dissesse dos sentimentos que tenho – ainda tenho por você – talvez dissesse de todos os nossos encontros e desencontros até hoje – pura e simplesmente por culpa sua – e talvez tentasse encontrar um jeito de expressar, provar o quanto sou apaixonada por você – e que não vai passar e eu não vou esquecer e não é uma simples vontade que dá e passa. Se você tivesse vindo hoje talvez eu conseguisse explicar como me sinto quando te vejo se aproximar – o coração acelerado – das frases que organizo as pressas na ânsia de que você fique um pouco mais e eu não tenha que te ver dar as costas tão sem demora, porque todas as vezes é exatamente isso que acontece, sempre fico aqui parada como uma idiota te vendo ir. Se você estivesse aqui hoje talvez eu elogiasse seu perfume, seus cabelos ou seu sorriso – esse mesmo que ilumina todos os cantos dentro de mim – todos os cantos dessa cidade, maldita cidade, que de repente eu me peguei gostando pelo simples fato de você viver nela. Se você tivesse vindo hoje eu não estaria aqui tendo que escrever, escrever e escrever cada vez mais para que ninguém leia, mas você nunca aparece, assim como nunca telefona, assim como nem se lembra dos nossos momentos da maneira como me lembro. Se você tivesse vindo hoje – mas não veio – simplesmente não veio.