sexta-feira, 11 de março de 2011

Um diálogo


Silêncio.

In the morning...

Duas pessoas.
Algumas cinzas pelo quarto.
Uma vodca pela metade.
Um silêncio.

Ou um quase silêncio.

- No que você tanto pensa?
- Na vida.
- Certo.
- Não vai me perguntar exatamente em que?
- Não.
- E por quê?
- Porque eu sempre pergunto e você nunca responde.
- Se cansou?
- Muito.
- Dessa vez eu responderia.
- Dessa vez eu não quero perguntar.

Don’t know why... New York City...

- Eu estava pensando em ir embora.
- Mas a garrafa ainda está pela metade.
- Em ir embora dessa cidade.
- Você só pode estar brincando.
-
- Não está?
- Eu acho que não faz muito sentido continuar aqui.
- Como assim?
- Sei lá. Deixa pra lá. Foi só um pensamento.
- Você sabe que não foi.
- É. Realmente não foi.
- Desde quando?
- Desde quando o que?
- Desde quando você vem pensando nisso.
- Já tem algum tempo.
- E por quê?
- Eu sinto como se aqui não fosse o meu lugar.
- Logo você que sempre disse que o lugar da gente é onde estão as pessoas que a gente ama.
- Acho que me enganei.
- Ou talvez você tenha enxergado que ama muito mais uma outra pessoa do que imaginava.
-
- Não é?
- Não. Não é.
- Você ainda não a esqueceu.
- Já faz muito tempo que ela foi embora.
- Sim, mas você nunca a esqueceu.
- Não faz sentido.
- O que?
- Isso tudo que eu ainda sinto por ela.
- Talvez ela realmente seja o amor da sua vida.
- Ela nem sequer se lembra que eu existo, Mariana.
- Quem disse?
- Ela nunca voltou.
- Ela disse que voltaria?
- Não.
- E você?
- O que tem?
- Você disse alguma coisa que demonstrasse que queria que ela voltasse?
- Eu disse que iria atrás caso isso não acontecesse.
- E nunca foi...
- Não. Eu nunca fui.
- E por que não?
- Não seria nada fácil.
- Mas agora você pensa em simplesmente ir embora e isso também não me parece fácil.
- É diferente.
- É, mas nem por isso é menos difícil.

I’ll be your baby tonight

- Eu acho que você deveria ficar.
- Mas eu sinto que preciso ir.
- Você ainda não passa de um garoto.
- Estou perto de completar vinte anos.
- Certo, mas você vai abandonar tudo?
- Tudo o que?! Eu nem tenho tantas coisas assim.
- Você tem sua família, seus amigos. Você cursa uma boa faculdade.
- Eu posso voltar de vez em quando.
- Você sabe que as coisas mudariam.
- Por exemplo?
- As coisas nunca voltam a ser as mesmas depois que a gente vai embora.
- Se ela voltasse...
- Se ela voltasse?
- As coisas não seriam as mesmas.
- O seu sentimento seria.
- Mas o meu sentimento não é tudo. Eu sequer sei se a perdoaria.
- Por ter ido embora?
- Sim.
- Mas como ela poderia ficar se era apenas uma adolescente?
- Eu a pedi em casamento.
- Você não fez isso.
-
- Fez?

Risos.

Come away with me.

- E ela te disse o que?
- Que eu só poderia estar ficando louco.
- Realmente.
- Eu já não sabia o que fazer.
- Vocês só tinham dezessete anos.
- Eu só queria que ela ficasse.
- E se depois de um tempo não desse mais certo?
- Ia dar.
-
- Ia. Não ia?
- Eu não sei.
-
- Você precisa ir atrás dela.
- Eu só preciso ir embora.
- A gente sempre viveu aqui. Como você pode assim do nada simplesmente ir embora?
- A gente sempre viveu aqui. A gente sempre reclamou por viver aqui.
- Eu sei, mas não faz sentido você largar tudo agora.
- Eu não agüento mais.
- O que?
-

Thinking about you

- Bruno?
- Eu não agüento mais. Não agüento mais caminhar pelas mesmas ruas. Ser reconhecido em cada lugar dessa cidade que eu ando. Cumprimentar todas as pessoas que passam por mim. Ser questionado como estão os meus pais. E ainda tem dias... Tem dias que me perguntam se eu ainda tenho algum contato com ela.
- Calma.
- Eu simplesmente não agüento mais andar por cada rua dessa cidade e me lembrar dela.
-
- Eu não quero mais estar aqui se ela não estiver comigo.
- Não é fugindo que você vai superar isso.
- E então é como?
- Tente se apaixonar de novo.
- Não vai funcionar.
- Eu não sei o que te dizer.

Cold Cold Heart

- Eu preciso ir.
- Promete que vai se acalmar?
- Prometo.
- Me abraça?
- Você é tão linda!
- Você é tão lindo!

Silêncio.

I’ve got to see you again

Silêncio.

- Eu vou embora amanhã.
- Deixe de besteira.
- É sério.
- Para!
- Eu não queria que nossa despedida fosse um momento infeliz.
- Você não vai embora e isso não é uma despedida.
- Eu já me decidi.
- Você não vai fazer isso comigo.
- Eu espero que você me visite.
- Eu não vou te visitar.
- Por quê?
- Porque eu não quero que você vá.
- Eu preciso ir.
- Eu preciso que você fique.
- Promete que vai se cuidar?
- Não.

- Você realmente vai fazer isso?
- Vou.
- Você vai voltar?
- Daqui algum tempo.
- Você vai atrás dela?
- Não.
- Como é que eu vou andar por essas ruas sem você?
- Eu volto pra gente andar junto.
- Promete?
- Prometo.
- Promete que vai fazer de tudo pra ficar bem?
- Prometo.
- Eu amo você.
- Eu também.
- Eu também?
- Eu amo muito você.
- Não me esquece?
- Como é que eu poderia me esquecer desse seu olhar?

Silêncio.

- Agora vai.
- Eu vou.

Ele nunca mais voltou.
Ela também foi embora.
Eles nunca mais se encontraram.

Nenhum outro som parecido.
Nenhuma outra garrafa de vodca.

E o sentimento que se perdeu...

Escrito em março de 2008 por Camila Aguilera