quarta-feira, 13 de julho de 2011

Palmital, 13 de julho de 2011.

É quarta-feira. Estou acordada há pelo menos uma hora. Pensei. Comecei pela quarta vez a ler Werther, parei de novo nas primeiras páginas. Reli Ponto de fuga. Agora estou ouvindo Caetano. Viajo amanhã de tarde, mas toda aquela ansiedade já me consome desde hoje. Há quanto tempo não coloco meus pés nessas cidades? Cinco. Seis anos. Tanta coisa mudou. Tantos sentimentos passaram. Aquela confusão toda da adolescência. Aquele gás também. Estou tão diferente. Hoje mesmo nem sei pra quem escrevo. Fiquei tanto tempo acostumada a escrever cartas de amor para você. E hoje você não faz mais parte do romance. Não sei o motivo, mas muito do que eu era se perdeu. Não me contento mais com pouca coisa. E “pouca coisa” mudou muito de sentido. Ando dando um valor maior aos – meus – sentimentos. Há um ano atrás eu não tinha sequer esperança. Exatamente por ter me sentido assim comecei a pedir durante muitas semanas que Deus a me desse de volta. E a minha fé. E a minha ingenuidade. Não sei. Sinto que a ingenuidade de antes nunca mais. Escrevo agora para você. Você que ganhou sentido. O meu sentido. É tão estranho. Já me apaixonei. Desapaixonei. Meus amigos sempre por perto. Ao mesmo tempo longe demais. Aos poucos eu sinto que a gente vai perdendo. Se perdendo. Se reencontrando em nossas casas. Mais maduros. Mais chatos. O tempo vai passando e levando a gente embora. O tempo sempre interrompendo os pensamentos, os sonhos, as vontades. Trazendo a gente de volta. Diferentes. Acordei hoje e fiquei um tempo enorme pensando. Depois pensei que não fiquei tanto tempo assim, mas nos últimos dias tenho pensado tanto. Na minha vida toda. Ou no caso, em todas as coisas que marcaram e ficaram. Penso também no que pensei que ficaria para sempre e não ficou. Faço uma força danada pra lembrar de certas coisas. Sorrio pelo tempo que passou. Choro pelo mesmo motivo. Viajo amanhã e já sinto falta das pessoas. Sinto falta da minha mãe que há semanas voltou a dormir comigo no quarto porque andei tendo medo de ficar aqui sozinha. Sinto falta dos meus avós brigando pelas coisas mais ridículas. Das conversas com os pais de alguns amigos. Sinto falta do que sou aqui nesse quarto com o caderno aberto e ouvindo Caetano. Sinto falta do que sou com esse nó na garganta por causa da incerteza de como será essa viagem. Não sei direito o que esperar. Não sei nem se espero alguma coisa. Acho que já me senti assim com relação a você. Sem saber o que esperar, gostando muito, pensando muito. Tem tão pouco tempo que me encantei e agora estou aqui escrevendo para você que não sei o que sinto, falando sobre tantas coisas e ao mesmo tempo sobre coisa alguma. Viajo amanhã com a esperança de que minhas palavras possam mudar a vida de uma pessoa. Estranho, não é? Não sei como vai ser. Faz dois anos que não o vejo, mas nunca o deixei de sentir. Acho que ele ocupa um lugar realmente grande dentro de mim. Nesse espaço que chamamos de coração. Penso se não deveria ensaiar algumas palavras. Eu fico tão nervosa e por vezes tão agressiva quando não sei o que dizer, quando sinto demais. Talvez devesse contar dos livros que leio. Ou quem sabe dos amigos que tenho. Há dias peço força. Há dias peço que não me falte fé. Fico pedindo pra que esteja iluminada e saiba o que falar. Fico querendo demonstrar o amor de tantos anos calados em um único encontro que nem sei ao certo se realmente vai acontecer. Sinto medo. Esse medo de não encontrar e então perder novamente o sentido. E voltar pedindo pra que eu recupere a esperança uma outra vez. Acho que ando precisando de pensamentos positivos. Tenho certeza de que preciso de algumas orações. Quero saber usar as palavras, mas sei que vou me deixar falar pelos abraços. E talvez silêncios. Algumas lágrimas. Lágrimas que a gente não sabe na hora se são de alegria ou tristeza. E não importa. Lágrimas são demonstrações de vida, de sentimentos. Só escrevo para que saiba, embora não tenha certeza se escrevo para você ou para mim mesma. Amanhã ou dentro de uma semana - dentro dessa vida que ainda tem sentido e sentimento - espero te encontrar.

Por Camila Aguilera

segunda-feira, 11 de julho de 2011

11.07.2011



Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e é de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és

(Caetano Veloso)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Julho de 2011

Eu só te escrevo hoje porque não há nada melhor a ser feito. São onze horas da noite. É sexta-feira. Eu já tomei um banho. Eu já fiz um chá. Um chá de hortelã como você nunca gostou. E agora eu não tenho nada melhor a fazer do que escrever pra você. Que fique bem claro. Que fique óbvio. São onze horas de uma sexta-feira e eu não sinto a sua falta ou tão pouco penso em você. Ao menos não como antes. É diferente e acho que você entende. Devo pensar em você exatamente da maneira como você pensava em mim enquanto eu pensava em você em todas as coisas que fazia. Estou ouvindo Chico Buarque e ele me lembrou você. Você chegando com seu cabelo bagunçado que eu costumava achar lindo e a coletânea para me dar de presente. Era um sábado comum. Era um sábado que não era meu aniversário ou natal ou qualquer outra dessas datas comemorativas e eu ainda lembro de você dizendo que aquele seria o sábado em que nós ficaríamos felizes apenas por ouvir Chico Buarque e estarmos juntos. Eu, você e o seu jeito de me olhar. Eu costumava achar lindo o seu jeito de me olhar. Nunca disse, mas era realmente lindo. Agora apenas acho doloroso. Eu não queria que esse tipo de lembrança me invadisse enquanto escrevo, mas o que posso fazer? Eu apenas gostaria de saber como você está. Porque você certamente está diferente daquele garoto prestes a se tornar um rapaz que um dia eu namorei. Tem dias como agora em que pego nossas fotos – não são muitas e isso é bom – e fico me perguntando se você ainda deixa a sua barba por fazer durante no máximo uma semana. Porque eu me lembro de como não gostava de você com o rosto completamente liso e você ria e perguntava se eu iria continuar apaixonada se você resolvesse ter uma daquelas barbas de cara-que-faz-filosofia. Eu estou escrevendo e espero que você me responda. Eu sinceramente espero por isso. Qualquer coisa. Não vou me importar se você apenas me disser que está bem e perguntar como estou. Eu juro que não vou me importar se você apenas disser como anda o clima por aí. Mas se puder, escreva mais. Se tiver algum tempo. Tempo. Faz tanto tempo não é? Esse é o momento que eu poderia fingir que não sei exatamente quantos anos se passaram, mas sei. Se duvidar te falaria até das horas. Ontem encontrei seus pais e agora penso que deveria ter pedido seu endereço para eles. Sim, de vez em quando eu os encontro na padaria ou no mercado. As coisas não mudaram muito por aqui. A cidade continua quase a mesma. Seus pais continuam formando um casal realmente bonito e um dia desses sua mãe me disse que nós formávamos um belo casal. Somente as pessoas mais velhas ainda falam “belo”, não é? Seria tão melhor se eu resolvesse apenas guardar essa carta como fiz com todas as outras, mas sinto que dessa vez a enviarei. Porque eu realmente quero saber como você tem passado os seus dias. Só me fale sobre o dia que receber essa carta. Ou então sobre suas últimas duas semanas. Se quiser fale mais. Fale sobre todos os dias desde que a gente se viu pela última vez. Conte-me como foi o seu primeiro dia na universidade. Sobre os professores chatos que teve. Se entusiasme dizendo que a melhor festa da sua vida foi a sua formatura que certamente nem te passou pela cabeça me convidar. Diga que sentiu a minha falta durante muito tempo. Durante algumas semanas. Apenas no primeiro dia que seja. Porque eu senti a sua falta. E ainda sinto. Mas não é de você hoje e sim daquele menino que estava prestes a ser um rapaz. Eu queria de volta todos aqueles poucos meses que passamos juntos. Eu te queria aqui ao meu lado. Eu te queria aqui deitado nesse chão frio enquanto escutávamos Oasis. Eu queria de repente você abaixando o som para ler Leminski. Por que você nunca mais voltou? A noite está ficando nublada e fria. Eu sinto que vou ficando do mesmo jeito. Não. Não era isso que eu queria te falar. Não quero parecer frágil. Não quero que você sinta pena. Ou fique de certa maneira sorrindo. Eu só não tenho nada melhor para fazer e estou ouvindo Chico. Eu não tenho nada melhor para fazer e estou te escrevendo enquanto bebo meu chá de hortelã. Nada de mais. Então não perca tempo lendo mais do que uma vez essa carta e nem tão pouco ousando sorrir por minhas palavras. Eu só não tenho nada melhor para fazer e quero muito que você também não tenha.

Por Camila Aguilera

domingo, 3 de julho de 2011

Paulo Leminski



quando chove, eu chovo,

faz sol, eu faço,

de noite, anoiteço,

tem deus, eu rezo,

não tem, esqueço,

chove de novo, de novo, chovo,

assobio no vento, daqui me vejo,

lá vou eu, gesto no movimento