quinta-feira, 7 de julho de 2011

Julho de 2011

Eu só te escrevo hoje porque não há nada melhor a ser feito. São onze horas da noite. É sexta-feira. Eu já tomei um banho. Eu já fiz um chá. Um chá de hortelã como você nunca gostou. E agora eu não tenho nada melhor a fazer do que escrever pra você. Que fique bem claro. Que fique óbvio. São onze horas de uma sexta-feira e eu não sinto a sua falta ou tão pouco penso em você. Ao menos não como antes. É diferente e acho que você entende. Devo pensar em você exatamente da maneira como você pensava em mim enquanto eu pensava em você em todas as coisas que fazia. Estou ouvindo Chico Buarque e ele me lembrou você. Você chegando com seu cabelo bagunçado que eu costumava achar lindo e a coletânea para me dar de presente. Era um sábado comum. Era um sábado que não era meu aniversário ou natal ou qualquer outra dessas datas comemorativas e eu ainda lembro de você dizendo que aquele seria o sábado em que nós ficaríamos felizes apenas por ouvir Chico Buarque e estarmos juntos. Eu, você e o seu jeito de me olhar. Eu costumava achar lindo o seu jeito de me olhar. Nunca disse, mas era realmente lindo. Agora apenas acho doloroso. Eu não queria que esse tipo de lembrança me invadisse enquanto escrevo, mas o que posso fazer? Eu apenas gostaria de saber como você está. Porque você certamente está diferente daquele garoto prestes a se tornar um rapaz que um dia eu namorei. Tem dias como agora em que pego nossas fotos – não são muitas e isso é bom – e fico me perguntando se você ainda deixa a sua barba por fazer durante no máximo uma semana. Porque eu me lembro de como não gostava de você com o rosto completamente liso e você ria e perguntava se eu iria continuar apaixonada se você resolvesse ter uma daquelas barbas de cara-que-faz-filosofia. Eu estou escrevendo e espero que você me responda. Eu sinceramente espero por isso. Qualquer coisa. Não vou me importar se você apenas me disser que está bem e perguntar como estou. Eu juro que não vou me importar se você apenas disser como anda o clima por aí. Mas se puder, escreva mais. Se tiver algum tempo. Tempo. Faz tanto tempo não é? Esse é o momento que eu poderia fingir que não sei exatamente quantos anos se passaram, mas sei. Se duvidar te falaria até das horas. Ontem encontrei seus pais e agora penso que deveria ter pedido seu endereço para eles. Sim, de vez em quando eu os encontro na padaria ou no mercado. As coisas não mudaram muito por aqui. A cidade continua quase a mesma. Seus pais continuam formando um casal realmente bonito e um dia desses sua mãe me disse que nós formávamos um belo casal. Somente as pessoas mais velhas ainda falam “belo”, não é? Seria tão melhor se eu resolvesse apenas guardar essa carta como fiz com todas as outras, mas sinto que dessa vez a enviarei. Porque eu realmente quero saber como você tem passado os seus dias. Só me fale sobre o dia que receber essa carta. Ou então sobre suas últimas duas semanas. Se quiser fale mais. Fale sobre todos os dias desde que a gente se viu pela última vez. Conte-me como foi o seu primeiro dia na universidade. Sobre os professores chatos que teve. Se entusiasme dizendo que a melhor festa da sua vida foi a sua formatura que certamente nem te passou pela cabeça me convidar. Diga que sentiu a minha falta durante muito tempo. Durante algumas semanas. Apenas no primeiro dia que seja. Porque eu senti a sua falta. E ainda sinto. Mas não é de você hoje e sim daquele menino que estava prestes a ser um rapaz. Eu queria de volta todos aqueles poucos meses que passamos juntos. Eu te queria aqui ao meu lado. Eu te queria aqui deitado nesse chão frio enquanto escutávamos Oasis. Eu queria de repente você abaixando o som para ler Leminski. Por que você nunca mais voltou? A noite está ficando nublada e fria. Eu sinto que vou ficando do mesmo jeito. Não. Não era isso que eu queria te falar. Não quero parecer frágil. Não quero que você sinta pena. Ou fique de certa maneira sorrindo. Eu só não tenho nada melhor para fazer e estou ouvindo Chico. Eu não tenho nada melhor para fazer e estou te escrevendo enquanto bebo meu chá de hortelã. Nada de mais. Então não perca tempo lendo mais do que uma vez essa carta e nem tão pouco ousando sorrir por minhas palavras. Eu só não tenho nada melhor para fazer e quero muito que você também não tenha.

Por Camila Aguilera

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