domingo, 27 de novembro de 2011

ÚLTIMA CARTA DE NOVEMBRO


Palmital, 26 de novembro de 2011.
02:03 de uma madrugada de sábado.


Por favor, confira no calendário sobre isso. Pesquise sobre tudo que eu disser, pois direi verdades e mentiras. As mesclarei tão bem que talvez você nem perceba. Ou perceba porque não sei mentir. Ou até sei, mas finjo que não. Pessoas. Sentir. Viver. Sem nada especifico. Estou escrevendo somente para desabar sobre você. Você que eu não sei quem é. Ou até sei, mas é melhor não citar nomes ou qualquer característica física. Existe o nome de uma cidade logo no começo. Pesquise por ela. Revire um mapa. Você a encontrará como um ponto, perdido no meio – ou no fim, trate como quiser – de um mundo inteiro. Ou de um pais que foi esquecido, mas que tantas vezes é lembrado. Lembrado por quem? Busquei vestígios dessa noite. E enquanto amigos, cervejas, cigarros e textos inacabados habitam minha mente, eu tento. E respiro agora um ar abafado pelas paredes do meu quarto. Paredes essas que em um mesmo tempo me sufocam e me dão liberdade para criar. Criar o que? Criar a minha própria liberdade que invento, almejo, mas não alcanço. Existem pessoas e sentimentos e vidas, mas isso não é nada específico. Ou até poderá ser, tudo aqui depende do seu ponto de vista. Ou do meu, pois sou eu quem escreve agora. E o que você lerá amanhã terá feito parte de um momento que já passou. Enquanto esse momento não existe mais, outros vão se criando e assim eu tento permanecer de alguma maneira no seu inconsciente. Ou no sangue que corre em suas veias sem ter ao menos feito parte do que te gerou. Amor ou mero sopro de um espasmo no meio da noite ou do dia. Não importa. Busque algo nessa vida. Independente do que. Menos amor. O amor surge e não cabe a nós. E não cabe em nós. Não, não te escrevo para te aconselhar. Ainda haverá um dia em que conselhos serão vendidos porque. Bom, eu não sei o motivo, mas quem os vender terá de ter um motivo, então apenas aguarde. Esse calor está me matando, mas me sinto viver a cada gota de suor que não escorre, mas quase sinto brotar. Quase. Limites. Linhas paralelas. Pessoas que não se cruzam em nenhum momento do tempo que nos é concedido. Ou nos é premeditado. Ou nos é significado de algo que não importa agora. Importante é você saber, ter conhecimento ou noção de que você não andará sob o seu próprio mundo. Esse mundo que te fizeram nascer e nomearam Terra, embora mais pareça com qualquer coisa que não sei definir, pois também não andei muito. E restará a mim e a você essas pessoas e esses sentimentos e essas vidas que nos chegam e nos derrubam e nos fazem continuar. Verifique, por favor, se quem te escreve agora sou eu mesma ou alguma outra pessoa que resolvi criar para dar suporte a essa angustia que não sinto. Repare naquela pessoa que passou rápido demais por você hoje. Talvez você nunca mais a veja. Ou poderia ser o contrário? Verifique, por favor, porque agora posso dizer que sou eu quem te escreve. Sou eu. Você me reconhece? E esqueça tudo que eu disse sobre ‘nada específico’, não posso tratar pessoas, sentimentos, vidas (...) como algo generalizado, preciso entrar no íntimo de cada um destes pra poder dizer tudo que penso. Não, não penso nada de relevante e que vá te fazer querer me ler quando procurar uma saída, penso tudo que não sei, sinto o inconsciente de tudo que não vivi. Só quero que você saiba. Saiba que o nome da cidade logo no começo é só o ponto de partida e que o fim, mesmo parecendo perto, encontra-se longe daquele primeiro nome. Porém, não vou te falar do fim. Você sabe que ele existe e que está vindo rápido. Você sabe. Eu sei. Não falaremos dele, não mais que isso. Se lembre da pessoa que passou rápido demais por você semana passada. Ela te fez sorrir por míseros segundos. Talvez você nunca mais a veja. E não importa. Importa? Diga que se importa, por favor. Diga por que quero voltar a passar por você e te fazer sorrir novamente. E te escrevo por querer que o talvez-você-nunca-mais-a-veja não exista. Não precisa sentir medo. Lembre-se do que eu disse, o importante é você saber. Não faça nada. Não evite a rua em que te fiz sorrir. Não mude de horário. Não fuja. Estou te escrevendo apenas pra que saiba. Saiba que depois dos olhos, meus pés seguiram os seus. Saiba que sei o número desenhado no portão da sua casa. Sei do verde. Sei da árvore com flores avermelhadas. Pensei por horas porque escolheu o azul nas paredes do seu quarto. Não se assuste, por favor. Você sempre se esquece de fechar a janela que fica defronte à rua, sob a sombra da árvore com flores avermelhadas. É pela paz? É pelo mar? É por que combinam com seus olhos? Sim, eu sei que seus olhos não são azuis. Portanto, entenda, qualquer cor combinaria com seus olhos. Você que eu finjo não saber quem é. Você que eu finjo não saber o nome. Você que segui por uma semana. Soube seu nome. E não soube o que fazer com o que cresceu em mim desde o seu sorriso. Não soube sequer passar por você novamente e roubar outro daquele. Não, não me acredite. É absurdo. É tão absurdo. Você não pode acreditar. Você não tem quê. Eu também não acredito. E mesmo assim estou aqui sentindo o calor de tudo que sufoca por dentro. Bebo. Fumo. Não acredito. Mudei-me de cidade há um dia. Mudei-me por não agüentar a loucura que meu coração vagabundo me faz passar. Não, não é sempre. Acredite, é a primeira vez. Sei que se pergunta agora porque te fiz procurar no mapa a cidade onde mora. Desculpe-me, só quis ter a sensação de que você fez alguma coisa na vida que eu também pude fazer. Estou te escrevendo somente pra desabar sobre você. Não serei um peso se o seu sorriso foi em vão. Não serei um peso e você poderá rasgar todas as minhas palavras depois que terminar de ler. Ou nem terminar de ler. Não sei se chegará até aqui. Se chegar e se lembrar o porquê de ter sorrido às sete horas de uma segunda-feira infernal, não me responda. Não com palavras embaralhadas e sem sentido como essas. Responda-me você. Venha-me com o mesmo sorriso da semana passada. Espero minha resposta na Rua Boa Esperança, número 500. Espero no bairro central em uma cidade chamada Cuiabá. A casa é azul. Pintei assim que cheguei. O motivo da cor, você sabe, vai combinar com seus olhos. Espero sabendo que você não vem. Espero porque pessoas, sentir, viver só fez sentido depois do seu sorriso. Espero porque durante muito tempo não vou ter amor nenhum mais bonito pra sentir. Você não vem. Eu espero. Espero. Espero-te.

Cuiabá, 27 de novembro de 2011.

Por Camila Aguilera em parceria com Jéssika Almeida

sábado, 19 de novembro de 2011

Você Entende?

Gosto de escrever em dias como o de hoje. Nem quente nem frio, nem triste nem feliz. Mais um dia entre os tantos que tenho desperdiçado.
Tenho lido tanto sobre sobreviver-viver que me questiono cada vez mais: o que estou fazendo?
Gostaria tanto de ter respostas pra todas as minhas perguntas, mas principalmente uma: até quando?
Ironicamente escrever sobre isso deixou o dia frio e triste, não tem mais meio-termo. É só mais um dia de luta constante contra meus pensamentos, contra o desespero interno, contra sobreviver e começar a viver.
Não sei dizer qual foi o ponto certo que me deixei perder. Às vezes gosto de pensar que sempre estive perdida, pesa menos, você me entende? Gosto de pensar que mesmo perdida encontrei caminhos curtos pra sentir, pra sorrir, pra viver. E quando me encontrava nesses caminhos, me perdia por não aguentar sentir, por não aguentar sorrir, por doer viver. Felicidade, às vezes, dói, você sabe disso? Dói, sufoca, perde o sentido. E eu fujo ou estrago tudo, o que no final é a mesma coisa.
É difícil aceitar a felicidade. Mas só pra pessoas como eu, que sente felicidade ao mesmo tempo em que sente o medo do fim dela. E antecipa o fim por pensar que machuca menos. Bobagem! Dor é dor em qualquer estágio, em qualquer corpo, em qualquer alma. Dor é sinonimo de vida.
Sempre fugi tanto das pessoas, talvez porque elas representavam uma felicidade que eu não entendia e não me permitia entender. Hoje consigo olhar no livro do passado e ver que nem sempre elas estavam felizes, era só a minha tristeza maior, que por vezes não era triste, só era solitária.
Fugi das pessoas me trancando no quarto, escrevendo em folhas soltas pelo chão, com os pés na cama, o olhar pro alto e os ouvidos em alguma música da Legião.
Fugi até me dar conta que aquelas pessoas iriam embora algum dia. Ou eu iria. E eu fui.
É quase um remorso pensar nas vezes que pedi pra dizerem que eu não estava em casa, que deixei o telefone tocar ou que o tirei do gancho. Só é quase porque eu sei que precisava ser só, mesmo precisando das pessoas, eu precisava mais ser só.
No último ano antes de partir abandonei minha solidão, não totalmente, mas o suficiente pra sentir, sorrir, viver. Fui tão feliz que depois de ler trechos dos textos escritos em folhas soltas num quarto escuro, não me reconheci. Tive até certo conflito sobre o que eu fui e o que eu tinha me tornado, um medo do passado, um medo do futuro e um alívio pelo presente.
Depois de partir tudo mudou. Obrigatoriamente tive que me compartilhar. A solidão ainda era companheira em noites nostálgicas em companhia de lágrimas e memórias.
Não foi fácil e não só por mim. As pessoas podem ser cruéis às vezes.
Alguns anos depois eu soube lidar com todas as mudanças e soube lidar com pessoas cruéis e até descobri que elas não eram tão cruéis. Soube lidar até com a solidão, eu não precisava mais ser só, embora quisesse às vezes, mas eram escapes, você entende?
Eu, pessoas, sentimentos, sorrisos, vida. Esse seria o meu problema maior. Eu não tinha ideia disso. Não, não estou dizendo que felicidade compartilhada é um problema. O problema é quando tudo acaba. O problema é quando todos vão embora. O problema é me reconhecer nos malditos textos de folhas soltas.
É por isso que escrevo em dias como o de hoje, constantes dias de agonia, constantes dias desperdiçados, pra me lembrar de sentir e de sorrir e de amanhã tentar viver e se não der, sobrevivo, depois de amanhã tento de novo, até a felicidade voltar, até que eu volte.

"Happiness only real when shared."

Jéssika Almeida

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

18 de novembro de 2011

Eu costumava passear por entre estradas de ferro, por dias e dias, um pé em cada lado da linha de fronteira, apenas para que eu pudesse dizer que estava em dois lugares ao mesmo tempo. Você balançava a cabeça em desaprovação e de forma familiar dizia que ninguém poderia estar em dois lugares ao mesmo tempo e, além disso, estar sobre trilhos de trem era ilegal, no caso, sempre um risco a correr. Querer viver um pouco, de longe, soa de forma ilegal. Trilhos são amigos das partidas. O dia em que você partiu o sol brilhava cheio nos meus olhos e até hoje eu ainda não consigo encontrá-los, mas você, você sabe onde eles estão. Eu tenho um convite para andar sobre os trilhos, que engraçado, há duas semanas atrás eu tinha você e se houvesse uma queda você não estaria ali para segurar minha mão, por um simples motivo, ninguém pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Não, nem mesmo você.


Por Menino Chico