segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

AO MEIO DE DEZEMBRO QUE PASSOU


Hoje,
É apenas uma linha
Em branco
Mas se daqui a pouco
Eu esboço
Uma frase
Ou rabisco
Um desenho
Se de amanhã pra depois de amanhã
Eu continuo com
O esboço e o rabisco
Serão dois
E depois três, quatro
Pares
Daqui pra duas semanas
Serão inúmeros
Eu posso até perder a conta
Daqui pra dois meses
Eu acabei com o tédio
Eu terminei com as linhas
Eu não finalizei o esboço
Nem tão pouco o rabisco
Quem dirá a vida. 

CAMILA AGUILERA 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012


Eu vou escrever um poema antes que o mundo acabe.
Sem rimas, sem estilo. Do meu jeito.
Eu vou ligar para meus amigos. Dizer que os amo e que estou grata.
Aos que se perderam, um “oi, tudo bem?” e desejar que lembrem-se de algum bom momento.
Enviar uma carta para o meu pai e dizer que tudo certo.
Digitar duas mensagens e falar que foi bom conhecer meus irmãos.
Pensar que o mais perto do amor é encontrar alguém em Minas Gerais.
Ouvir pela última vez “De onde vem a calma” e reler “Os sobreviventes”.
Pedir para que meu avô toque acordeão enquanto eu vejo minha avó cozinhar.
Pegar as fotografias e rever com a minha mãe, enquanto penso que não amei ninguém como ela.
Abraçar meus tios e minha prima de dois anos.
Dizer que a vida - em muitos dias - valeu pelo sorriso dela, mesmo que ela ainda não entenda.
E não entenderá por algum tempo ainda.
Levar uma lambida do meu cachorro enquanto acaricio a cabeça da Menina.
E depois...
Eu vou sentar lá fora, sozinha. Só desejo ser capaz de relembrar tudo.
Que o tempo corra lento e suave.
Imagina se o fim do mundo realmente acontece?
Espero ter feito tudo e poder relaxar.
Tomar uma cerveja e esperar por algum som diferente.
Uma luz que seja maior que o sol.
Um espetáculo que seja mais bonito que o céu estrelado.
Será dia? Será noite?
Não acabará. Não terá fim. Não terminará.
Eu estarei aqui amanhã.
E será diferente. Mesmo que o mundo não tenha mudado.
Sem poemas. Porque nunca fui boa nisso.
Eu estarei aqui amanhã. Mais leve, mais feliz. Talvez. Pelos sentimentos que foram expostos antes que o mundo terminasse. O meu mundo que é minha vida. Pelo menos.

Para Bruno Castro

Por Camila Aguilera

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

AO COMEÇO DE DEZEMBRO


Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva.
[Arnaldo Antunes]

Dias e mais dias para acabar com algo que você não sabe sequer quando começou e nem ao menos consegue prever quando terminará.  Faz um calor insuportável dentro do quarto. O ventilador só serve para atrapalhar as canções que você troca insistentemente há algumas horas sem encontrar nada que realmente te toque. Não se preocupe tanto com datas, tudo isso fará parte do passado. Quando é que se tornou cômodo para você viver dessa maneira? Pare de teimar e achar que está agindo de maneira correta dessa vez. Vamos falar sobre você e nada mais. Tudo bem? Escrevo para você porque não há nenhum assunto melhor do que você para ser tratado hoje. Escrevo nesse momento porque não acredito que você viverá outros como o mesmo. Enquanto olha pela janela para descobrir pistas de quem te escreve, repara mesmo no céu ou apenas perde-se em alguma ou outra lembrança sem dar importância ao agora? Tanto tempo apenas vivendo de ilusões que você criou. Vivendo de sentimentos que pouco a pouco te escaparam pelos dedos. Sem possibilidade de volta. No fim, o que te restou? Além desse gosto amargo de quem bebeu além do que deveria.  Há quanto tempo apenas ri? Da vida. Das pessoas. Dos próprios sentimentos que passaram. O que tempo fez com o que você sentia? Se já não escreve. Se já não procura por livros que te emocionem. Apenas mantém há semanas esse sorriso de quem conseguiu - enfim - pensar mais do que sentir. Racional. Pare de olhar para esse maldito relógio! Você não está perdendo tempo comigo. Está perdendo tempo é com essa fase que em nada combina com você. Essa água que bebe está gelada? Você é mais. Sério. Daqui alguns anos enquanto ler tudo isso, pode desacreditar de qualquer coisa, mas acredite em mim. Tente sentir sua pele. Quente pelo calor. Vá mais fundo. Perto do peito. Enfie os dedos no coração. O que te aconteceu durante esses meses? De repente, amava. De repente, se apaixonava. De repente, . E então a frieza escorre pelo suor do seu próprio rosto. Difícil de acreditar. Já não fala sobre o amor. Já não tem vontade de se doar. Contenta-se consigo. Veja em que ponto chegou. Logo você, já não ousa sentir. Eu sei que é mais fácil ser feliz, mas por vezes a felicidade também entendia. Vai por mim. E então te pergunto: quem seria você nesse momento em que te escrevo? Se já não te reconhece em suas próprias palavras. Se já não te reconhece sem as paixões que antes te corriam pelas veias. Como sangue. Como o ar. Quem seria agora essa pessoa que te olha através do reflexo do espelho? Tornou-se o que tanto ansiava ou o que tanto temia? Não se desespere. Você tem tempo para voltar ao normal. Não sei se importa que eu te deseje qualquer coisa que seja, mas volte a sentir. Seu jeito de ser é trágico, mas é lindo. Seu amigo te disse algo parecido com isso há algumas semanas ou meses atrás. É verdade. Pare com isso de achar que perde tempo lendo esse ou qualquer outro texto. Pare de pensar e sinta. Sério! Daqui a algum tempo, a gente só vai se lembrar do que foi mais forte dentro da gente. E que no caso, continuará sendo. Esqueça essa coisa de ser feliz o tempo todo. Ninguém pode viver assim. Sente-se aí e escreva logo algum texto de amor, desses que você inventa tão bem e que faz com que as pessoas ainda acreditem que sentimentos bonitos existem. Releia todos os seus textos se for preciso, mas pare de achar que nada do que viveu até então valeu de verdade. Você sabe melhor do que ninguém que tudo que envolve sentimento vale muito mais do que qualquer coisa nessa vida. No fim, você deve chegar a algumas conclusões idiotas como o fato de que a vida vale por um sorvete de morango numa tarde quente de domingo enquanto você relembra sua infância ou os amores que teve. Vamos lá, se olhe no espelho mais uma vez. Vomite você mesma só mais uma vez e sinta. Apenas sinta. 

Por Camila Aguilera 

domingo, 4 de novembro de 2012

04 DE NOVEMBRO DE 2012




"Mas deve haver algum jeito exato de conta essa história que começa e não sei se termina ou continua assim: Sonhei que você sonhava comigo. Ou foi o contrário? Seja como for, pouco importa: não me desperte, por favor, não te desperto."
[CAIO FERNANDO ABREU, Por trás da vidraça] 

Você sempre chega sem pedir licença. E vai continuar sendo assim. Eu sei. Talvez a culpa seja minha. Afinal, eu te dei liberdade demais pra ir e voltar quando bem entendesse. Só que eu sempre quis te pedir pra que não aja mais dessa maneira. A gente precisa ter calma pra entender o que acontece aqui dentro de mim. Porque o que acontece dentro de você, eu prefiro não ter certeza. Espera. Eu não estou pedindo pra que você vá embora. Será que você não faz ideia do quanto eu peço por isso todos os dias antes de fechar os olhos e dormir? Senta aí e me deixa mais um pouco por aqui digerindo toda essa sua presença que de repente tomou conta de todo o quarto. Como se não bastasse a vida. Tente entender que se eu fico quieta assim é porque preciso de um pouco de tempo pra pensar e não ficar ainda mais irremediavelmente apaixonada por você. Não arrombe a porta. Não quebre a janela. Você sabe que basta me pedir e eu te deixo invadir uma outra vez a minha vida. É, eu nunca disse que mudaria. Você chega, me rouba os sentidos e enquanto eu finjo não me abalar, você apenas sorri. Só que dessa vez eu não vou me mover. Nem um centímetro. Isso tudo tem que durar mais do que todas as outras vezes. Não vamos pular etapas. Não darei um passo que seja para chegar mais perto de você. Pegue algo pra beber. Por que você não me avisou que viria? Eu teria dado uma ajeitada em tudo. Eu sei que você não liga pra esse tipo de coisa, mas. Nos últimos dias tudo foi tão estranho, eu devia ter imaginado que você chegaria. Sempre penso demais em você quando novembro se aproxima. Penso. Claro que penso em você em todos os outros dias, só que você entende que é sempre mais durante essas semanas. Esquece. Eu nem sei o motivo pra falar tanto dessa maneira. Por favor, dê logo os próximos passos. Menos de dois metros nos separam. Até poucos minutos atrás eram mais de setecentos quilômetros. Chegue até mim e me faça entender de uma vez por todas que não importa o quanto eu negue, eu sempre serei tua. Deixe todo o resto pra depois. Pare de reclamar que a casa é quente demais. Que o quarto é pequeno demais. Você não gosta da cor que eu escolhi para as paredes. Nada disso é importante. Eu só preciso que você preste atenção em tudo que eu tenho pra te dizer. Não, eu não quero e nem vou falar nada sobre amor. Esse não é o momento. Vai que eu te assusto? Eu não quero nem sequer te olhar, mas eu nunca aguento por muito tempo. Meu Deus, eu tô sempre com uma saudade absurda de você! Eu te abraço e me esqueço de quantas vezes pensei estar à beira do precipício quando tão perto de você. Você que me acolhe. Enquanto digo algumas frases que não fazem sentido algum fora da minha cabeça. Você foge do meu olhar e me diz que eu preciso parar de agir como uma criança que tem medo. Meu bem, eu nem tenho tantos medos assim. Só não gosto de tempestades. E também da maneira como você consegue fazer com que eu me sinta. Mas todos hão de concordar que não é muito legal alcançar o céu e logo depois sentir que ele está desabando. Você balança a cabeça em tom de desaprovação e me diz que tudo ficará bem dessa vez. E então eu me pergunto: como pode tudo ficar bem depois que você for embora de novo? Sinto o seu olhar sobre mim enquanto se reaproxima. Há quanto tempos estamos aqui? Não quero mais me sentir nesse estado nauseante. Eu me vejo cedendo um pouco mais a cada vez que te olho. Ora, não fique sorrindo desse jeito! A chuva caindo lá fora e a gente se abafando aqui nesse quarto. Enquanto eu tento manter tudo em ordem. Dentro de casa. Dentro do peito. E o coração que trai a gente? Você diz que gosta de mim. De que maneira? Eu penso nos anos que se passaram. Nos dias que não voltam mais. No tanto que mudamos. Você coloca um disco qualquer. Eu mexo o café até que ele esfrie. Eu tenho um nó por dentro do tamanho do amor que sinto. A noite está quase terminando. Daqui a pouco, a chuva se despede também. Deita do meu lado. Entrelaça os nossos dedos. O sol não decide se volta ou se ausenta de vez. Enquanto a gente não decide o que faz dessa vida. Normalmente, as pessoas vão embora e eu fico aqui procurando algo que preencha o vazio que por vezes elas deixam. Só que você continua sendo essa canção que toca ao fundo, aquele vídeo, aquele texto. Esse texto. Eu ainda nem consegui dizer que te amo, mas você sabe mesmo quando todas as palavras se perdem em meio aos meus silêncios. Você me conhece tão bem. Larga esse livro. Eu preciso te dizer que não quero mais. Você me explica o que é blefar. É, meu bem, é apenas um blefe. Mal ensaiado. Mal encenado. Mal dito. Você sorri com o canto da boca. Eu penso que logo mais tudo vai desmoronar. Você me pede pra viver o hoje. Eu mudo a canção. A gente poderia dançar, mas a gente só se olha. Eu canto uma frase na sua orelha mais tarde. Eu só preciso que você fique. Eu me entrego. Eu te leio todas as cartas. Eu te falo de amor. Eu me calo. Você me abraça e eu te beijo os olhos. Eu vou querer você. A gente nunca tem certeza, mas eu quero. Como quis ontem. Todos os dias desde o dia quatro de novembro de dois mil e oito. Eu te quero sempre. Eu te amo. Você se afasta. Você vai embora, não é? Eu aponto a porta. Eu quero gritar, mas nada sai. Você silencia comigo. Você se afasta mais. Um quarto pequeno demais se tornando enorme em segundos. Eu vou atrás. Sem me arrepender. Eu volto a estaca zero. Eu te espero. Eu estou sempre esperando que você venha e abra a porta devagar, mas não faz mal se não for com cuidado. Eu me acostumei. Eu não me importo. Eu te amo. Eu não sei se você entende, mas eu te amo. Eu me perco. Enquanto te olho. Você já mal me ouve. Eu te amo. Daqui a pouco algum barulho ridículo nos tira desse momento, mas você sabe que vai continuar sendo assim. Eu vou querer te tocar depois que o sonho terminar. Depois que o disco acabar. Eu vou me lembrar de você em todos os lugares. Eu vou escrever sobre você e esse amor, me basta um papel. Eu só preciso de mais algumas horas pra te contar sobre os meus planos que envolvem você. Quando a gente se formar... Lembra disso? Quando a gente se formar, a gente vai se ver pelo menos quatro vezes no ano. Lembra? Só mais cinco minutos pra que eu possa parar de sentir tanta saudade. Só mais alguns segundos pra que eu possa dizer que te amo e ver você sorrindo. Deixa eu olhar só mais uma vez dentro dos seus olhos e ter certeza de que você sabe. Sempre soube que eu...

"Eu sonhei que estava exatamente aqui, olhando pra você
Olhando pra você, exatamente aqui..."
[JENECI e TULIPA, Dia a dia Lado a Lado] 


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

DEZESSEIS DE OUTUBRO DE 2012


Sente-se. Peça uma cerveja ou um suco, qualquer coisa que te molhe a boca quando senti-la seca por tanto falar. Fale. Não tenha vergonha. Eu juro que tentarei não ter. Fale bastante. Fale da sua vida que deu certo. Conte-me alguma história. Qualquer história. De amor. De algum amor que deu certo. Uma história de duas pessoas que foram felizes. Conte-me uma estória infantil. Cinderela, A bela adormecida. Essas estórias de contos de fadas em que você sabe desde o começo que o final será e-foram-felizes-para-sempre. Acho isso tão clichê, tão lindo, tão algo que eu queria para mim. Você não acha? Beba comigo essa noite. Peça pra tocarem City and Colour. Aperte a minha mão e diga que tudo vai dar certo. Dê-me um desses seus sorrisos lindos. Acenda um cigarro. Escute-me. Melhor, não me escute. Eu costumo falar tanto após algumas bebidas, mas me deixe tentar falar sobre algo bom. Alguma história boa e tranqüila que não seja minha. Eu posso tentar e inventar um romance. Vamos falar sobre essa vontade que temos uma ou outra vez na vida de ficar pra sempre ao lado de alguém. Peça outra cerveja. Conte-me uma história sua. Conte-me sobre o seu amor bem resolvido. Preciso tanto ouvir histórias boas. Ouvir qualquer coisa que me faça acreditar que o amor pode – ainda – dar certo. Sei lá. De repente. Assim do nada. Eu viro uma esquina. Eu viajo. Conheço alguém e me apaixono. E então dá certo. E a vida fica melhor de se viver uma outra vez. Uma última vez que seja. Eu não quero acreditar no que Nelson Rodrigues disse. Tem que haver uma maneira de amar e ser feliz ao mesmo tempo. Tem que ter. Por favor, não venha me dizer que eu estou me iludindo. Qualquer pessoa pode me dizer coisas do tipo, menos você. Fume mais um cigarro comigo. Depois a gente vai pra algum outro lugar. Caminhar por aí como se não houvesse mais nada pra se preocupar além da ressaca que teremos assim que amanhecer. Se eu soubesse te cantaria uma canção bem bonita agora. É, uma canção. Uma dessas suas canções preferidas. Você merece uma canção com a melhor letra e melodia que podem existir. Você merece tudo de mais bonito. Como uma chuva que refresque um dia quente em Cuiabá. Ou o barulho das ondas que te acalmem depois de um dia tumultuado. As ondas te trazem paz e lembranças? Se você quiser, pode ir agora. Só que eu te peço pra que volte. Amanhã ou depois. Volte com uma boa história. De amor. E se tudo der errado mais pra frente – quando o tempo passar e a gente não conseguir segurar entre os dedos – com todas as outras pessoas, eu vou continuar ouvindo Follow the cops back home e lembrando de você. Lembrando de você e dessa noite em que eu preciso tanto de alguém que me conte uma história de amor. Pode ir. Daqui a pouco, eu também me levanto e vou pra casa escrever algo para enganar as pessoas de que tudo está dando certo. Só que antes de dormir é por você que eu vou fechar os olhos e desejar que amanhã seja um dia de céu azul ao lado de alguém que realmente te ame. Que sejam vinte e quatro anos – ou trinta e dois, sessenta e oito... – de bolsos vazios, marcas de cigarro e tintas de caneta, mas que não haja um único dia em sua vida que te falte amor. Deseje-me isso também. Nada mais, nada menos do que isso. Só isso. 

Escrito em outubro de 2010 e modificado até então por Camila Aguilera

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

OS HOMENS TAMBÉM AMAM II

Sexta-feira. 07:46 da manhã. Há dois dias não durmo. E não é necessário citar aqui o dia do mês em que te escrevo e nem o lugar do planeta onde me encontro. Você vai saber daqui algumas linhas, mas o mais importante é que você saiba que te escrevo por vários motivos, dias, sentimentos. Saudades, talvez. Não fique com essa cara de quem está se perguntando: mas por que ele resolveu reaparecer justamente agora? Fique tranquila. Eu não vou voltar a fazer parte da sua vida. Você não vai abrir a janela da sua casa e dar de cara comigo no seu jardim. Eu só estou te escrevendo. Entenda isso e simplesmente leia tudo o que será escrito por mim nesse papel. Espero de verdade que saia algo decente dessa vez, porque eu já perdi a conta de quantas folhas amassei. Não se pergunte se não seria mais fácil um e-mail ou uma mensagem no celular, pois nós dois sabemos que sim, mas seria também mais frio. E de frio bastam esses primeiros dias de primavera que resolveram amanhecer com cara de inverno. Sem falar que eu acho muito mais bacana tocar em papeis que foram tocados pelas mãos de outra pessoa que te escreve porque está com saudades, te ama ou quer no máximo, matar o tempo te contando sobre as últimas coisas idiotas que aconteceram. Como você está? Eu cheguei na cidade há quatro semanas após ter passado os últimos seis anos da minha vida viajando de um lado pro outro do mundo. Vivi de maneira absurda. Conheci cidades. Escrevi horrores. Aprendi outros idiomas. Fiz alguns cursos. Seis anos buscando por algo que me fizesse crer que tudo estava fazendo sentido. E nada. Outras cidades. Outros ares. Aumentei minha coleção de canecas. Troquei meu par de tênis quatro vezes. E voltei pra casa com aquela sensação de: que merda que eu fiz da minha vida? Aprendi a fotografar de maneira decente e te mando algumas fotografias que fiz. Em uma delas me sinto tão perdido que não consigo imaginar um jeito de fazer com que o sol me alcance. Você deve se lembrar de como eu sempre gostei desse lance de registrar os dias, as noites, as luzes. Você dentro deles. Te mando também um retrato meu, meus pais dizem que mudei muito. Eu não sei. Vi minha cara refletida todos os dias durante esses anos e não consigo perceber tantas mudanças assim. Como estão os preparativos para o seu casamento? Sim, eu sei que você se casa dentro de algumas semanas. Sinto-me frustrado. Sempre fui o seu amigo. O cara que você corria pra chorar por todos os outros caras idiotas que te dispensavam por não saberem valorizar todas as qualidades que você sempre teve. Deus, como eles podiam ser tão escrotos em te perder?! Durante esse tempo que estive fora, esperei que você me escrevesse sobre seus inúmeros e nada duradouros relacionamentos, mas nenhuma carta ou ligação. Um e-mail que fosse. Encontrou outro ombro onde chorar? Eu poderia te dizer que senti muito por você simplesmente sumir e não me dar mais noticia alguma da sua vida. Só que não vejo sentido em te apontar o dedo sendo que eu fiz exatamente o mesmo. Eu voltei há quatro semanas e me sinto sufocado. Essa cidade continua quase que do mesmo jeito. Me sinto novamente com meus dezenove anos, provando do primeiro beijo ou brincando de esconde-esconde. Todos souberam da minha volta. Todos querem ver o filho do Seu Antenor e da Dona Maria. Acho tão chato tudo isso. Um verdadeiro porre! Falando em porre, tomei um ontem. Fui naquele bar onde tomamos nossa primeira cerveja quando completamos a maioridade. E por isso te escrevo hoje, ainda que sinta a cabeça latejar. Desde que coloquei os pés nessa cidade, no nosso quarteirão, no meu quarto. Desde que... Eu quase invadi a sua antiga casa. Pode parecer loucura, mas tenho sido assombrado por inúmeras recordações. Talvez essa não seja a melhor palavra para ser usada aqui, mas não consigo pensar em outra para substituí-la nesse momento. Você só precisa saber o que demorei seis anos pra perceber, mas que agora tenho total percepção, você sempre me fez muita falta. Fiquei pensando no quanto eu gostaria que você estivesse comigo em todos os lugares por onde passei. Certamente faria fotografias realmente bonitas de você sorrindo em cada esquina que dobrei. Hoje, eu só preciso saber se você realmente está bem. Não precisa me responder se não estiver com vontade. Ou se nada fizer sentido. Eu só não posso deixar de te falar sobre tudo o tenho sentido. Aconteceu ontem o que me deixou fora de controle e me fez sentar naquele mesmo bar e pedir doses de uma vodca vagabunda. De vez em quando, a gente tem a péssima ideia de querer reviver o passado. E ontem foi um desses dias. Comecei a revirar caixas e mais caixas de fotos, livros e cadernos que a minha mãe sempre fez questão de guardar. Eu devia ter uns seis ou sete anos. Não sei ao certo. Sei que em um daqueles dias de inverno em que ficávamos sem nos ver por causa das suas viagens que duravam três ou quatro semanas na casa da sua avó, eu acabei por fazer um desenho. Naquela época, eu não saberia escrever com precisão o que acontecia. Bom, eu demorei muito tempo para saber. E acredito que você nunca percebeu. Existe alguém retratado naquele desenho tão mal rabiscado. Os olhos estão tristes. Não há nenhuma cor em qualquer canto daquele desenho. Nada de feliz. Nada. Sai desnorteado. Bebi como nunca tinha feito na vida. Passei por sua casa e joguei pedras na janela na esperança de você saísse de lá e viesse – uma única vez – me consolar. Sentei-me no meio fio. Frágil como nunca imaginei que pudesse me sentir. Fiquei olhando pra gente correndo de um lado pro outro da rua sem se importar com nada. O desenho em mãos. Os olhos vermelhos. Cansados. O coração como se tivesse sido esmagado. Por suas mãos. Sem chão. Sem cor. Ou céu. Encontro-me depois de vinte e tantos anos decifrando o que era evidente. E o que me resta é uma risada cortada pelos soluços de quem percebe que é tarde demais. Hoje – ou ontem, não tem importância -, eu tive a infeliz certeza de que pensava exatamente em você enquanto fiz aquele desenho. Aquela criança triste ali rabiscada era eu sem você. 

Por Camila Aguilera

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

01 de outubro de 2012



Eu poderia te falar sobre as flores. Sobre o campo verde, as borboletas paradas a me olhar. Sobre o barulho do mar, os pés afundando na areia. Sobre os carros que buzinam, os prédios que sufocam. Eu poderia te falar sobre uma canção do Cícero ou sobre o livro com contos inéditos do Caio. Hoje, eu poderia te pedir pra que caminhe pra fora de sua casa e se permita estar em todo e qualquer lugar enquanto fecha os seus olhos. Só que nesse momento, eu apenas te peço pra que se permita enxergar que onde você está é exatamente onde deveria estar e que o céu não é menos bonito por isso. 

Feliz aniversário, Gabriela Ciolini.

Com - sempre com - amor,

Camila Aguilera. 


quarta-feira, 19 de setembro de 2012

NOTA


Nausear
Causar fastio
Revelar
Despejar pela boca
Lançar fora
Arrancar de dentro
Como quem enfia o dedo na garganta
Na tentativa de expelir qualquer coisa que seja
Eu ainda escrevo sobre você. 

Camila Aguilera

sábado, 1 de setembro de 2012

SETEMBRO, 01 DE SETEMBRO


Acabou.
Esqueça os dias de ventos insuportáveis e tempo seco.
Um outro mês mostra as caras.
Supere a desordem de pensamentos e sentimentos.
Deite sobre a grama ou o piso frio de sua casa.
Contemple o fato de estar recomeçando.
Findou-se.
Respire sob a imensidão desse céu azul.
Desamarre essa cara.
Enxugue essas lágrimas.
Agosto já passou.
Abra as janelas para que o sol ilumine.
Desate o nó.
Haverá primavera.
E sorrisos.
Agosto está destruído.
Terminado.
Sobrevivemos.

Camila Aguilera

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

OUSE SENTIR


Acho que no fundo de todo mundo a hipocrisia se remexe e por vezes grita enquanto a gente tenta segurar pra não morrer de decepção com a gente mesmo. Quando digo que todas as pessoas são hipócritas, estou me colocando no meio delas. Como quando choro pela minha cachorra morta no café da manhã e me alimento do frango morto de alguém no almoço. Como quando escrevo sobre amores que deram certo, embora já não acredite tanto assim. Ou até mesmo quando sorrio e peço que se cuide, quando na verdade, quem está precisando de cuidados sou eu com esse coração que qualquer dia desses acaba comigo, mas não se esquece de você. Essa minha paixão que me deixa tão hipócrita quanto essas pessoas que por vezes critico. Veja bem, eu te desejo que seja feliz ao lado dessa pessoa que você está e me suicido pensando que gostaria de ser eu ao seu lado. É sério. Perdi as contas de quantas vezes ensaiei chegar até você. Meu espelho já não suportava me olhar. Os ouvidos das paredes do meu quarto já estavam quase me mandando calar a boca. Ensaiei te tocar e te dizer palavras que fizessem um mínimo de sentido. Qualquer palavra ou sentimento que te fizesse ficar ao meu lado. Ensaiei um amor. Ensaiei. A diferença entre eu e essa pessoa que te abraçabeijasegura agora é a falta de medo. O mínimo de confiança. Eu teria muito mais paixão do que ela nos lábios, mas eu não ousei. Jamais ousei. Só fingi não sentir enquanto desmoronava. Desmoronava. 

Por Camila Aguilera

domingo, 19 de agosto de 2012

POR ENQUANTO


Há algo que me persegue.
Seria possível a morte de todas as coisas?
E então eu.
Resto.
Não existe resposta para quem sou.
Muito menos para o que sinto.
Há algo que me dói em meio ao riso.
E não quero sentir.
Nada.
Mas quando é que isso se torna possível?
Não entendo.
Faço o que?
Escrevo.
Incapacitada de heterônimos.
Ou novas personagens.
Penso.
Só que não passa.
Mas o que haveria de passar?
Fosse fadiga.
Fosse tristeza.
Fosse o que.
Eu não sei.
Passar o que?
O tempo.
O nada.
Minto.
O tempo passa.
O nada, eu nem ao menos sei o que é.
Entendam-me.
Ou não.
Eu vejo as pessoas indo.
Não sei pra onde.
Só que elas vão pra algum lugar.
Eu apenas observo.
As pessoas andam.
Ou até mesmo correm.
E eu me sinto rastejar.
É uma maneira de não perder tudo de vista.
Rastejo.
Por dentro.
Por fora.
Existe um buraco.
Um buraco cheio.
Tentem visualizar.
Eu estou quase terminando.
É um buraco.
Cheio.
Cheio de que?
Cheio de mim.
Esse buraco sou eu.
Eu sou o que preenche.
Transbordo histórias.
E estórias.
Sentimentos.
E não sei o que sinto.
E qual o problema?
Eu não sei.
E por vezes pode ser bom não saber.
Independente do que.
Talvez eu só precise de um pouco mais de calma.
E algumas orações.
Perdoem-me caso o pior aconteça.
Devo desculpar-me?
Eu estou quase.
Ainda respiro.
E escrevo.
Penso.
Só não esqueço.

Camila Aguilera

domingo, 12 de agosto de 2012

Para José dos Santos Baptista



É, pai, fácil não foi. Alguns dias não foram nada tranquilos. Doeu sim. Chorei. Senti. A gente sempre sente. A gente tá sempre sentindo. Algumas vezes, eu fingi. Certo, durante anos, eu fingi. Sentia profunda vergonha por te amar. É sério. Eu recebia suas cartas e no final delas tinha sempre algo como “o pai ama muito você” e eu sempre respondia que também te amava. Era verdade. Só que eu escrevia cada uma dessas cartas no meio da madrugada pra que ninguém pudesse sequer imaginar o que eu confessava. A mamãe não sabia, nem meus avós, ainda menos os meus amigos. Tem visto o seu pai? Você não sente falta dele? Você consegue gostar dele? Não. Não. Não. Ou algo assim. Vazio. Vazio mesmo, sabe? Acho que nunca me viram chorar por você. Sou melhor que a Fernanda Montenegro quando finjo uma felicidade que não existe. Ou ao menos eu era. O vô, eu penso que às vezes percebia algo, mas ele nunca comentava. Acho que ele soube muito bem fazer o papel de super-herói, mesmo que não soubesse como perguntar como eu me sentia. Só que hoje em dia tanta coisa mudou. É, pai, não é fácil. A vida adulta é chata e por vezes entedia. Eu me tornei uma boa pessoa. Ou algo perto disso. Só que eu erro. Erro tanto. Sinto medo. Odeio o tempo e esse meu pensamento de que ele está passando mais rápido do que deveria. Estou sempre me apaixonando. Por livros, canções, pessoas. Bom, não são tantas pessoas. Nos últimos quatro anos, foram apenas três. No começo sempre fico feliz, mas depois. Nunca sei exatamente o que fazer com meus sentimentos e. Dói. Choro. Choro pra caramba. E o pior, de vez em quando, é na frente das pessoas. Será que estou regredindo ou só não tenho mais vergonha de sentir? Não era bem esse tipo de coisa que gostaria de te dizer hoje. Só que eu sinto medo de me parecer demais com você e nunca superar ter perdido um grande amor. Mesmo que eu não tenha, de certa forma, vivido ele. O senhor consegue me entender? Espero que sim, mas não faz mal se não conseguir. Eu só queria que você soubesse que às vezes – ou quase sempre – me sinto frustrada como o senhor com relação a minha mãe. Só que nunca me arrependo de sentir. Acho que é bom se apaixonar. Ainda mais se for todos os dias da vida por uma única pessoa. Não, eu ainda não encontrei essa pessoa. Ao menos, eu acredito que não, já que ainda não liguei ninguém à canção “Último Romance”. Ah, isso é algo que o senhor não sabe, mas Los Hermanos é a minha banda favorita. Aquela banda daqueles barbudos que cantavam “Ana Júlia”, sabe? É, tem muita coisa que o senhor não sabe sobre mim, mas uma das principais é que sou completamente apaixonada por música. Desde Caetano e Bethânia até Cícero, Transmissor, 5 a Seco e um bando de novos artistas que ter surgido e me encantado a cada semana. Sou apaixonada por livros também, eu faço Letras e isso, o senhor sabe. Eu te contei nas férias. Tem um escritor gaúcho, o Caio Fernando Abreu, que é o autor que eu mais gosto. De vez em quando é como se ele tivesse escrito pra me machucar um pouco mais ou pra simplesmente me fazer entender que eu não sou a única que passo por certas coisas na vida. Mas falando em férias, não me arrependo nenhum pouco das últimas, pai. Sinto um gostar muito grande por julho. É inverno. Faz sol. Eu sempre sorrio. E dessa vez teve bons dias na terra da garoa. Na sua terra. Parece que nada pode realmente durar numa cidade que está em constante movimento, mas eu tenho lá minhas desconfianças se realmente não existe amor por aí. Senti-me aquecida pelos amigos que encontrei, pelas ruas que andei. Tive tantas paixões. Não duraram mais do que minutos, mas foram tantas! Só que o mais bonito, pai... O mais bonito foi o teu olhar ao ver eu e meus irmãos. Juntos. Pela primeira vez. Eu acho que sei o que o senhor sentiu naquele momento e não há palavras pra descrever. Só que eu sei. Olha, eu já estou quase terminando. Na verdade, acho que não há mais nada a ser dito. Prometo que escreverei outras  vezes. Eu sei o quanto o senhor gosta de cartas. E isso é algo comum entre a gente. Fica bem. Se cuida por aí. Não demora pra aparecer, certo? Eu estou com saudade. E a gente tem que “recuperar” o tempo perdido. Dê um beijo nos meus irmãos. E não esquece, eu amo você.

Com amor, 

Camila Aguilera Baptista

sábado, 4 de agosto de 2012

DIA 04


Guardei dois em uma gaveta
Tranquei um outro atrás da porta
Enviei três deles em cartas sem destino
Um deles eu vi dentro de uma garrafa que esvaziei
Dentro de um trem outros dois me acenaram
Atrás de uma tela eu perdi a noção de quantos tive
Agora são cacos
São nada
Vinguei-me
Nunca mais dormi
Derrotei utopias
Desisti dos sonhos
Quis apenas realidade
Matei-me.

[Camila Aguilera]

segunda-feira, 23 de julho de 2012

OS HOMENS TAMBÉM AMAM


No começo? Claro que foi difícil. Olhar para os lados a procura de quem já não voltaria. Tocando cheiros. Sentindo vestígios. Depois o abandono de si mesmo. Tentando acreditar que o tempo curaria. Agora, estava ali no mesmo apartamento. Tantos anos depois. As pernas cruzadas sobre a cama desarrumada, alguns livros espalhados ao seu redor. A barba por fazer. Maria Bethânia ecoando no rádio. Não sei, comigo vai tudo azul. Contigo vai tudo em paz.  quanto tempo a sós com suas anotações e suas memórias? Suas saudades. Ali a sós com seus próprios sentimentos. E que isso lhe bastasse. A campainha. Ignorou. Se aproximou da janela, olhou o movimento da cidade lá embaixo, alguns casais, o barulho das ondas, das buzinas, dos passos, das vozes, da insistência da campainha, dos “eu te amo” sussurrados. Tempo, tempo, tempo. Olhou o calendário. Quarta-feira. Pelo dia poderia ser a mãe ou o irmão, mas ele sabia que não. Sorriu ao sentir o cheiro que sabia que se lembraria para sempre. Olhou fixo para um canto qualquer. Parou. Passou as mãos pelos cabelos. Campainha. Ajeitou as almofadas no único sofá. Campainha. Jogou fora as cinzas de cigarro. Estalou os dedos. Pediu em pensamento pra que desistisse. Ouviu passos se afastarem. Correu até a porta. Abriu. Respirou fundo. Chamou.
- Desculpe, eu estava no quarto ouvindo.. Organizando algumas coisas e... Enfim...
- Tudo bem. Posso entrar?
Que pergunta idiota. É claro, é claro que poderia. Poderia entrar e ficar para sempre.
- Deixe que eu pergunte ao meu sofá... Bom, acho que ele não se importa.
Riram. Cúmplices.
- Não preciso dizer pra que fique a vontade, não é? Vou buscar algo para beber. Vinho ou cerveja? Chá gelado ou água?
- Um vinho.
- Certo.
Andou em passos lentos. Uma dose de uísque. Tentou regular a respiração.
- Seu apartamento continua quase que do mesmo jeito.
- Deve ser porque eu ainda desgosto dele como sempre desgostei. Ainda quero uma casa com um bom jardim, um cachorro, uma lareira... Enfim, você sabe...  
- Os mesmos sonhos então?
- Nem todos. Alguns, sem perceber, eu acabei deixando pelo caminho.
- O mesmo olhar.
- Em uma cara quase envelhecida.
- O tempo realmente passou para nós.
- Pois é.
O silêncio que por vezes constrange.
Por seres tão inventivo e pareceres tão contínuo. Tempo, tempo, tempo, tempo. És um dos deuses mais lindos. Tempo, tempo, tempo, tempo.
Algumas cervejas. Algumas taças de vinho. Outras pessoas.
- Levou realmente a sério seu gosto por fotografias.
- Assim como meu sonho por escrever em jornais.
- Nenhuma nossa.
- Estão guardadas em uma caixa.
- Posso vê-las?
(...)
- Fabrício e...
- Isabel.
- Verdade. Por onde será que eles andam?
- A última vez que a encontrei, ela estava prestes a viajar para Portugal.
- E ele?
- Nunca mais encontrei depois que terminamos a universidade.
- Ricardo e Benjamin.
- Patrícia, Carlos e Luísa.
- Você ainda os encontra?
- De vez em quando, Luísa e Ricardo aparecem por aqui.
- Diga que...
- Direi.
- No Ibirapuera.
- No bar do Marechal.
- Nós éramos realmente bonitos juntos.
Pareces que dizes, te amo, Maria. Na fotografia estamos felizes.
- Eu sinto a sua falta.
- Eu sei.
- Você... Sabe?
- Nunca me deixei desiludir que você também sentiria.
- Faz tanto tempo.
- Faz.
- Olha pra mim. Foi muito difícil pra você?
- O que você acha?
- Eu sinto muito.
- Não sinta muito.
- Você sabe que...
- Não sinta nada. No caso, não finja que sente.
- Não fala assim. Você pode achar que não, mas foi difícil para mim também.
- Posso imaginar o quanto. Largar uma vida quase monótona em um apartamento que você sabia que quase não mudaria. Deixar para trás alguém que praticamente só trabalha para se alimentar, comprar alguns livros, um ou outro disco, viajar uma vez por ano. Realmente deve ter sido muito difícil.
- Eu gostava muito de você.
- Mas gostar não é o suficiente, não é?
- Eu não sei.
- Mas eu sei que não é. E sabe por quê? Eu não mudaria por você. E você muito menos por mim. Você sempre deu valor ao material. Enquanto eu. Casais com pensamentos, planos e sonhos diferentes só funcionam em canções, novelas e filmes. E os opostos podem até ter esse lance de se atraírem, mas não duram. Entende?
- Você nunca mais se envolveu com ninguém?
- Para que? Para estar pela metade com outra pessoa e ouvir cobranças o tempo todo?
- Você sempre foi... Eu não sei, mas você sempre me pareceu que viveria muitas paixões e...
- Eu as vivi. Encontrei. Esbarrei nas paixões. Quando não suportava mais a solidão saia por aí e as inventava e as recriava. Só que eu não sou para dar certo, entende? Se eu der certo com alguém perco o foco. Se eu der certo com alguém vou escrever sobre o que?
- Sobre um amor que deu certo.
- Amor de verdade a gente só tem uma vez na vida e o meu não vingou.
- Eu te amei muito, só não...
- Só não foi o suficiente?
- Eu não sei mais o que te dizer...
É desconcertante rever o grande amor...
- Mais um pouco de vinho?
- Não, acho que é hora de ir.
- Tudo bem.
- Eu só não entendo uma coisa. Se você diz que me amou. Então por que nunca lutou por mim? Sabe, por esse sentimento?
- Porque eu senti desde aquela época que eu só escreveria de verdade quando desse errado.
- Eu realmente preciso ir.
- E eu preciso escrever sobre você.
- Coisas tristes?
- Apenas coisas que não fazem mais sentido.
- Devo agradecer por seu sofá ter me deixado entrar?
- Seria de bom grado.
Sorriram pela segunda vez.
- Boa noite.
- Boa noite.
Alguns passos.
Uma porta fechada.
Aberta.
- Espera...
Uma fala quase inaudível.
O silêncio do apartamento. O silêncio do corredor. Talvez devesse correr porta afora e dizer. Talvez gritar. Ou apenas dizer em um tom de voz que não beirasse a loucura. Preferiu se voltar para si. Deixou as palavras morrerem na garganta, ecoarem no pensamento, permanecerem no coração.
- Volta que eu mudo. Volta que eu te amo. Volta que eu...
Fotografias.
Duas pessoas.
Um amor.
- Teriam sido anos dourados?
Sorrisos. Abraços. Dois perdidos. 
- É in-su-por-tá-vel rever o grande amor, Bethânia! É esgotável.
Mais algumas cervejas. Brindou com a saudade. Com o amor que durou somente enquanto o olhar era quase infantil. Brindou com o passado que não voltaria. Com os filhos que nunca teve. Com a mulher que sempre lhe tirava do seu estado normal.
Fosse ainda jovem e calçaria seus sapatos e sairia por aí bebendo em todos os bares. Fosse ainda jovem. E então daria risada e choraria. Fosse ainda jovem iria até a sua casa e gritaria seu nome, lhe diria palavras de amor e ódio.
- Nada de recados, Bethânia. Fosse eu ainda aquele rapaz de antes.  


Por Camila Aguilera