quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O CHAPÉU E UM CÉU DE SENTIMENTOS


                                                                                         (Gabriela Ciolini)

                                                                        I

Era um dia frio quando a menina olhava pela janela do quarto. Um céu azul lá fora, mas ali dentro andava tudo meio nublado. Um sol iluminava cada pessoa que passava pela rua, mas ali dentro andava tudo em uma escuridão meio esquisita. A menina olhava para o dia lá fora e para sua vida ali dentro. Ela olhava para fora, para dentro, mas não encontrava inspiração. Houve um tempo que ela escrevia tanto. Escrevia muito, amava muito, descartava muito. Há quanto tempo atrás?  
Aconteceu naqueles dias de quase inverno ou em um começo de outono. Na verdade, ela nem sabe ao certo quanto tempo faz. Lembra-se apenas que era uma quarta-feira e quarta-feira costuma ser um dia... Como é que se pode dizer? Quarta-feira não costuma ser um dia ruim porque não é segunda-feira, mas também não é de todo agradável porque não é sexta-feira. As pessoas e seus pensamentos de que o final de semana é tão melhor, mas na verdade pouca coisa muda – ou até mesmo nada -. Essa menina me disse que pensava nos seus próximos dias quando ele surgiu. Eu tenho as minhas dúvidas, mas a minha opinião pouco interessa por aqui. O que importa nesse momento é que de repente ele se colocou em sua frente. Não se sabe se por destino, coincidência ou ventos.
A menina que não era bonita e nem feia reparou nele chegando. É claro que reparou. Pensou em pega-lo, mas não o fez. Ficou ali olhando as folhas e flores que voavam. Aquele era o seu outono. Ficou ali olhando o movimento das pessoas que iam e vinham. Aquele era o seu momento. Ficou ali. Só que de repente ela olhou de novo pra ele e. A menina fechou os olhos, respirou fundo e pensou em fazer uma prece.
Aquele que até então era desconhecido sorriu para a menina. Logo para aquela menina que era tão meio termo. Um c-h-a-p-é-u havia sorrido pra ela.


                                                                          II

            Sem poder – ou querer – fazer qualquer outra coisa naqueles dias, ela simplesmente se esqueceu do vento, do sol, das pessoas lá fora e alcançou o chapéu. Passou a mão sobre ele, o colocou ao seu lado e então começou a pensar que a vida era realmente estranha com tantas pessoas, cores e sons. O que lhe restava era ficar ali vendo todo aquele vai e vem de gente, sendo iluminada por um sol e sentindo o vento. O vento que trazia uma tempestade. O sol que logo seria encoberto por algumas nuvens. As pessoas que caminhavam depressa demais. Talvez o vento pensasse em jogar poeira nos olhos dessas pessoas que não param para notar o sol. Talvez o sol pensasse em como era triste ter que ir embora ao final de todas as tardes. Talvez as pessoas pensassem em como aquele chapéu não combinava em nada com aquela menina. Talvez eu pensasse que deveria escrever um dia uma estória sobre um chapéu e uma menina. E a menina, bom, a menina apenas pensava que tinha arranjado – independente do que as outras pessoas pensassem – um bom chapéu.

                                                                          III

            Embora a menina não saiba como aconteceu, não foi difícil criar um laço de uma amizade com aquele chapéu. Uma menina, um chapéu, uma amizade. Não parece combinar muito, não é? Afinal, um chapéu não fala, um chapéu não anda, um chapéu não tem sentimentos. Bom, não foi exatamente isso que a menina me contou. Era um chapéu bonito. Muito bonito por sinal. Estranho era pensar que o mesmo não tinha rosto. E não tendo rosto ficava difícil de saber ao certo o que ele sentia.
            Apesar de quieto no começo e um bom tempo depois de tanta convivência, aos poucos o chapéu começou a sorrir mais vezes, conversar um pouco, ouvir muito. A menina sempre foi de falar tanto. E de vez em quando, muito de vez em quando, ela achava que ele tinha vontade de chorar, mas nunca o fez. Pelo menos não que ela tenha visto. Quando percebeu, ela lhe falava muito sobre um amor que não deu certo, sobre a necessidade que tinha em se manter apaixonada, sobre as canções e livros que mais gostava e a saudade que sentia dos anos que não voltavam mais. O chapéu apenas sorria, discordava, pedia para que ela tivesse calma e mostrava aos poucos que tinha um coração gigante e vermelho. Como é que um chapéu podia trazer tantas surpresas? Sem rosto, pernas ou braços, mas com aquela luz de esperança que parecia iluminar todos os momentos em que a menina se permitia ficar ali ao lado dele.


                                                                          IV

            Uma menina que gostava de escrever cartas, ouvir canções românticas, respirar o ar puro da sua cidade pequena. Um chapéu que gostava de Chico Buarque, escrevia coisas simples sobre o amor, apresentava e encantava a menina com Bethânia. Uma menina que nunca pensaria em ter um chapéu. Um chapéu que não combinava com nenhuma roupa da menina. Uma menina que estava começando a viver, um chapéu que já tinha passado por tantas cabeças. Um chapéu que tinha tido como único amor uma pena que enfeitou sua vida. Uma menina que achava que já tinha encontrado e perdido o seu amor. Diferentes, mas tão iguais no modo de aceitar cada um a maneira do outro. Uma menina tão frágil e ao mesmo tempo tão forte. Um chapéu tão forte e ao mesmo tão frágil. Uma menina que às vezes se entregava a tristeza. Um chapéu que estava ali para cobrir seu rosto e não deixar que ninguém a visse chorar. Uma menina e um chapéu que pouco discordavam um do outro. Um chapéu e uma menina que nunca brigaram. Por mais diferentes e estranhos que fossem juntos. A menina nunca disse que preferia que o vento nunca o tivesse trazido, mas tinha certeza que se dissesse ele apenas daria uma daquelas suas risadas e diria que voltaria de qualquer maneira. Onde é que já se viu um chapéu rir tanto da vida?

                                                                          V

- Você vai voltar?
- Daqui algum tempo.  
- Você vai atrás da sua pena?
- O que o tempo levou embora, eu nada posso fazer para mudar, minha menina.
- Como é que eu vou andar por essas ruas sem você?
- Eu volto pra gente andar junto.
- Promete?
- Prometo.
- Promete que vai fazer de tudo para ficar bem?
- Prometo.
- Eu amo você. 
- Eu amo muito você.
- Não me esquece?
- Como é que eu poderia me esquecer desse seu olhar?

Só que o tempo existe e se faz presente. O tempo interrompe. Um dia o chapéu partiu. Nesse dia a menina ficou. Ficou ali olhando o céu iluminado pelo sol e as pessoas que continuavam apressadas demais. Ficou ali enquanto o sol ia embora e o vento começava outra vez a derrubar folhas e arrastar flores. Teve vontade de pedir para que o vento trouxesse logo o seu chapéu de volta. Teve vontade de dizer que ela então o usaria com alguma roupa bem bonita. Abriu a porta e sentiu a chuva molhar seu rosto. Gotas de chuva e lágrimas se misturando em meio a falta que ela sabia que sentiria. Pensou no chapéu e em tudo que ele lhe ensinou. Deitou na grama e começou a sorrir. Lembrou-se do chapéu. Lembrou-se do seu riso e de suas canções. Dos seus conselhos e de sua calma. Sentiu sua falta. Sentiu saudades. Continuou a viver.

               VII

Porque a vida é para ser vivida e não lamentada.

               VIII

            Uma vida tranqüila a menina passou a ter. A menina ou a moça? Acredito-me que ela sempre terá nos olhos um brilho quase infantil. A menina que agora é moça. É moça e só se lembra de alguns amores porque deixou escrito sobre. Enterrou mágoas. Conservou boas amizades. Chorou quando teve vontade. Sorriu revendo o passado. Abraçou o presente. Teve esperança no futuro. É moça e amadureceu. Aprendeu a reparar nas cores dos dias. A ver beleza na nostalgia. A acreditar em si mesma. A escrever sobre um chapéu.
            Um chapéu que um dia desses voltou e viu uma menina que agora é moça fechar os olhos, respirar fundo e fazer uma prece em agradecimento. Uma menina que tinha lágrimas nos olhos. Um chapéu que só fazia rir.
            Um reencontro numa tarde de fim de outubro naquele mesmo quarto que antes era nublado e agora já não tem nenhum inverno. Uma menina que pediria pra que aquele chapéu jamais fosse embora outra vez. Um chapéu que permanecia ao lado daquela menina com um brilho nos olhos, mas não aquele brilho habitual, e sim aquele que quando pisca escorre e se mostra um lado que vive e sente.

            - Promete que nunca mais vai embora?
            - Certas coisas não são possíveis de serem prometidas.
     - Você me olha como se não houvesse amanhã.
     - E quem é que garante que haverá?

                                                                          IX

            Vocês me perguntam se eles viveram felizes para sempre. Eu lhes pergunto se realmente acreditam nisso. Desculpem a sinceridade, mas isso de para sempre não existe. Ou até existe, mas não encontrei nenhum final assim nesses vinte e poucos anos. Se souberem de algum, por favor, me contem.
            Tantos outros ventos. Tantos outros caminhos. Pessoas. Objetos. Destinos. Um único chapéu. Uma única menina. Fizeram o que puderam. Viveram muito. Foram felizes dentro das possibilidades que tinham.
            E de vez em quando inventaram um final feliz para uma estória – ou seria história? -. Tanto faz. A vida é feita – ou dada – exatamente para ser inventada em alguns momentos.   


Por Camila Aguilera



1 comentário(s):

Gabi Leonel disse...

Simplesmente lindo! "Porque a vida é pra ser vivida e não lamentada."
Adorei!

http://fugaadarealidade.blogspot.com.br/