terça-feira, 6 de março de 2012

AS MOÇAS

Por Diogo Reis

E, independente do que dissessem, era uma moça muito triste.

Triste não necessariamente por levantar cedo todos os dias, ou fazer café, trabalhar e viver uma vida fechada, com tão poucas pessoas e situações. Sua tristeza vinha de outras fontes, fontes misteriosas, e ela não abria muito disso para ninguém.
Triste, aliás, não diz muito. Posso tratar, aliás, vida daquela moça simplesmente como algo que não deu certo e fim, como um romance que termina sem antes começar – e essas outras coisas que não funcionam mesmo, de qualquer modo. Eis que, porém, não há dor da minha parte, ou pena. Não me comovo com estado tal de espírito ao qual chegou essa moça.
Isso porque, em primeiro lugar, ela é uma moça tediosa, uma moça da cidade grande, e não merece detalhes. Em segundo lugar, não tenho tempo para me preocupar com seus problemas inventados. Tenho em mim uma moça doce de uma cidade pequena que também tem problemas mas é feliz. Vive aqui dentro e lá fora uma moça que, independente do que disserem, será sempre um bom exemplo para provar que, se a moça da cidade não está errada, ao menos está sem verdadeiros motivos.
Essa moça que carrego comigo também me fala outra coisa sobre a moça da cidade: ela me diz que há fraqueza. Porque essa moça da pequena cidade me mostrou que as coisas são complicadas e duras e complexas e que não há nada que se possa fazer senão encarar. Aliás, a menina de longe me ensinou muito. Terei eu como, um dia, encontrar a moça da cidade grande e dizer-lhe: “Conheço uma garota de longe que me provou que a dor que agora você sente não existe. Conheço uma menina de uma cidade pequena que, acima de tudo, me contou que você não deveria ser tão triste”?
Talvez em um ônibus, talvez em um cruzamento pouco famoso de duas ruas quase desconhecidas. Mas não quero encontrar, na verdade, essa moça triste que sei que aqui existe em algum lugar.
A moça que planejo ver mora longe e aqui dentro, e é feliz.


Nota: Tem como não amar alguém como Diogo Reis?

Nota 2: Esse texto como meu melhor presente de aniversário por meus vinte e um anos.

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