quinta-feira, 31 de maio de 2012

CATORZE DIAS DEPOIS




Com a ponta dos dedos você mexe em seus cabelos
Com a ponta dos dedos você mexe a colher de chá
Com a ponta dos dedos você mexe em seus brinquedos
Com a ponta dos dedos você irá me negar
Eu não me acostumo à sua beleza
Bonito um dia isso poderá passar
E esse agora já vale a nostalgia
E algum dia essa hora irá chegar
[Wado]

Último dia de maio. Existe sol e pessoas lá fora. A previsão é de que logo mais a chuva começará. Torço para que não haja trovões demais. Dentro do meu quarto eu me deixo ficar num estado de quase escuridão. Nesse mundo se vive melhor quem aprende a girar com ele. Todos os dias. Mas eu continuo aqui apenas pensando no que não posso tocar. Sentindo o que não posso sentir. Faltei colocar sua mensagem como imagem de plano de fundo do meu celular. Eu gosto muito de você, mas tenho medo de alimentar algo que não vai acontecer. As paredes do meu quarto me vêem com olhos de quase compaixão. Eu leio sua mensagem por minutos a fio. Repito em voz alta. Não deixo que nada me desconcentre. Ao fundo Florence ecoa em meus ouvidos. Poderia ser qualquer outra canção. Jack “Monstro”. O Teatro Mágico. 5 a seco. Poderia até mesmo ser um desses pagodes grudentos. Tantas outras mensagens. Então não me perde. A gente “se precisa”. Não dá pra ficar longe... Desestabilizo-me. Eu gosto muito de você, mas tenho medo de alimentar algo que não vai acontecer. Quebro-me em pedaços. Protejo-me no seu abraço. Eu poderia te pedir pra que mentisse por algumas linhas. Por um ou outro momento. Minta, meu bem. Mentiras sinceras não interessam somente a Cazuza. Interessam a mim e todos esses outros tolos apaixonados. Só que você não mente. E eu espero suportar de maneira decente mais essa dose de verdade. Sinto como se levasse um soco todos os dias no mesmo local. Devolvo dois. Sinto-me sem forças, mas os meus dias de cão também se acabarão. Eu gosto muito de você, mas tenho medo de alimentar algo que não vai acontecer. Não vai acontecer. Nãovaiacontecer. Não vai...


Por Camila Aguilera

sexta-feira, 18 de maio de 2012

ENTREGO-ME

No dia que você chegou
Passei a querer viver
Morrendo, um pouco, às avessas
Até que nada aconteça
Somente eu e você
No mundo da minha cabeça
[5 a seco]

Só que acontece o que normalmente não deveria acontecer. Na minha vida há sempre algo que vai contra o normal. Estou sempre fazendo o movimento inverso. Enquanto as pessoas quebram a cara e se tornam mais frias, eu continuo aquecendo o mundo ao meu redor. E acreditando. Acreditando que um dia ainda aqueço de verdade o coração de alguém. Em par. Só que nesse momento, você deveria abrir a porta e se dar conta de que escrevo como se isso pudesse me salvar do fracasso que é ser eu. Hoje. Você bem que poderia abrir a porta e simplesmente me ouvir dizer que tudo foi muito mais intenso do que eu esperava que fosse. O sol iluminou demais. A tempestade foi muito longa. A vida inteira foi assim. E ainda tem você. De vez em quando eu vivo. Na verdade, é quase sempre. Hoje é que está tudo errado. Só existo. Dentro da noite. Dentro do dia que mal começou. Dentro do frio que faz lá fora. No meio dessas palavras que não fazem sentido. Essas palavras que não te alcançam. Eu quis o mundo inteiro. Depois me esqueci. Dos planos. Dos sonhos. De antes. Menos dos teus olhos. São eles que têm ficado em mim há dias. Enquanto meus olhos tentam decifrar o tempo e tudo ao seu redor. Agora, eu penso que deveria te dizer qualquer coisa que te convencesse a ficar. O problema é que você está sempre ficando. Marcando os dias com seu jeito de chegar, sorrir, piscar os olhos. São apenas algumas coisas que eu tenho reparado. E que gosto tanto. Não sei te dizer ao certo como foi que aconteceu. Sei que um dia desses eu percebi que era mais feliz quando você vinha. Não tenho certeza quanto ao dia da semana. A gente vivia se encontrando. A gente vive se esbarrando. O que eu mais gosto nesses dias assim é de sentir o seu cheiro misturado a cigarros e bebidas. E também do seu sorriso. E do seu jeito de olhar. Os teus olhos têm um brilho todo diferente. São eles que me fazem ficar sempre por perto. Meio estranho te dizer sobre essas coisas, mas é porque um dia eu me prometi que não esconderia de ninguém os meus sentimentos. Esses sentimentos que tenho e me fazem acreditar em tudo uma outra vez. Ninguém precisa saber da raiva que a gente carrega – mas saber que existe um gostar assim talvez seja bom -. Não consigo visualizar o momento em que a atração se tornou amizade que se tornou um encantamento que não passa. Sentimentos que se misturam e mesclam-se tão bem que já não sei distinguir o que sinto ao te ver falar, dançar ou dizer qualquer coisa sem sentido que me faz sorrir. Nem tão pouco consigo entender o que se passa quando nos damos um daqueles abraços que são só nossos. Mas os tempos são outros. Eu tenho muitos minutos a menos. Você ainda tem meses para alcançar. Enquanto escrevo, eu te vejo entrar por essa porta. Nesse quarto que você jamais pisou. Quase te toco com esse olhar que te desnuda pra dizer que te adora. Só que o dia de hoje está só começando e eu nada mais posso fazer do que simplesmente entender que será mais um dia em vão. Não adianta querer controlar o que sentir, quando sentir ou por quem sentir. Olha pra gente. Eu tô completamente perdida em você. Só que amanhã ou só alguns dias depois, eu quero te dizer sobre tudo que tem acontecido ao meu redor quando você chega e faz com que aconteça o que normalmente já não deveria acontecer e.

Por Camila Aguilera


terça-feira, 8 de maio de 2012

SOBRE A VOLTA


- Eu sabia que você voltaria hoje. Você sempre volta ao final de três ou quatro dias, mas dessa vez foi mais de uma semana. Sete dias, quatro horas e sei lá quantos minutos. E embora eu tenha sofrido muito nos últimos dois dias pensando que talvez você não voltasse, preciso te agradecer por ter quebrado a rotina. É muito chato e perde a graça viver num relacionamento em que toda vez que você me olha assim, você logo fecha os olhos, respira fundo, pega algumas roupas e bate a porta. E depois volta. Tem horas que eu não agüento esse seu jeito. Por que é que você nunca grita? Você nunca está aqui para me ver arremessando os seus livros contra a parede. As vezes pratos. Dessa vez eu tive medo. Acabaram-se os pratos. Ri e pensei que talvez tivesse também acabado o amor. Fiquei aqui nessa mesma posição durante horas pensando se você realmente voltaria. E ainda agora eu me sinto sem saber o que fazer. Não sei se te abraço ou te beijo de uma vez. Você chegou tem quase duas horas, trocou de disco sete vezes, tentou ler dois livros. E eu ainda não sei o que fazer. Das outras vezes você abriu a porta enquanto eu já tirava as minhas roupas. Dessa vez a gente ainda não transou. Por onde você andou durante todo esse tempo? Sete dias. Uma semana. Dá tempo de fazer tanta coisa, sabia? Sei lá. É tempo de sobra pra gerar um filho. É tempo suficiente para se apaixonar por outro alguém, mas você voltou. Se olha no espelho. O seu olhar mudou. O que foi que aconteceu? Eu senti a sua falta. Esse quarto fica gigante sem você. É terrível me perder entre seus livros, canções, roupas e cheiro enquanto você sai por aí e eu nem sequer sei se tem se alimentado direito ou fumado demais. Onde é que você vai? Trocar o disco. Pegar outro livro. Agora você vai ficar trocando de livro, disco e voltando para se olhar no espelho até quando? Olha para mim. Sete dias! Eu senti a sua falta. Esse seu silêncio está nos esmagando. Esse quarto está nos matando. Eu preciso de um pouco de ar. Toma um banho. Eu desço e peço a sua pizza favorita e depois podemos tomar duas cervejas ou duas limonadas. Ou a gente pode mudar dessa vez. Andar algumas ruas. Sentar em algum outro bar. Um daqueles botecos bem vagabundos. Pedir dois conhaques e uma porção de azeitonas. Sei lá. A gente pelo menos sai da rotina de vez. A gente transa depois. Dessa vez você não trouxe nenhum dos meus chás favoritos também. Olha, está calor demais e eu realmente preciso de ar. Eu vou fazer os pedidos e depois volto pra gente descer junto essas escadas entre risos e dedos entrelaçados. Alguma vez eu te disse o quanto amo as suas mãos? Dessa vez você demorou uma semana para voltar e deu tempo de pensar em tudo que eu amo em você. Dessa vez eu esperei duas horas para dizer, mas você sabe que eu quero a gente junto pra sempre. Eu amo você. Vai lá e toma logo o seu banho. O seu condicionador continua no canto esquerdo do armário. A sua escova de dente eu troquei. Esquece todo o resto. Eu sei que você está pensando em ir embora de vez, mas não vai. A gente vai continuar voltando porque é assim que tem que ser. Porque pode até não ser perfeito, mas pelo menos a gente fica perto quando o mundo quiser nos engolir lá fora. Porque o amor é assim mesmo. E nós vamos aprender a lidar com isso. Juntos. 


Por Camila Aguilera

segunda-feira, 7 de maio de 2012

MEIO MUNDO INTEIRO

Quero ver você com esses olhos
Olhando para mim olhar inteiro

E deve ser assim que o sentimento começa a preencher os espaços dentro de todos. E é assim que você vem preenchendo os espaços dentro de mim, fechando as feridas, deixando borboletas no estomago, trazendo sorrisos. Sorrisos bobos esses meus. Esses sorrisos que dou quando sinto qualquer novo cheiro e lembro do seu que eu nunca senti. Esses sorrisos que abro quando vejo seu sorriso lindo em uma foto e penso. Penso em você aí, em mim aqui. E nesse sentimento que nasceu em mim, em você que eu não sei. Mas eu tenho a chance. Eu terei a chance. De talvez fazer com que tudo dê certo. De fazer você sentir-se especial. E quem sabe você guarde o meu cheiro na lembrança. E então quem sabe você não sorri e as borboletas dancem também dentro de você, enquanto eu passo as mãos em seus cabelos e te beijo os lábios? Enquanto ouvimos uma musica que mesmo a distância eu já escuto e o seu rosto me vem. E talvez eu preencha os espaços. E o sentimento pode ser que comece em você depois de mim. E talvez eu fique assim ao seu lado e você permaneça ao meu. Como se tivesse sido escrito.

Escrito em junho de 2010 por Camila Aguilera