terça-feira, 8 de maio de 2012

SOBRE A VOLTA


- Eu sabia que você voltaria hoje. Você sempre volta ao final de três ou quatro dias, mas dessa vez foi mais de uma semana. Sete dias, quatro horas e sei lá quantos minutos. E embora eu tenha sofrido muito nos últimos dois dias pensando que talvez você não voltasse, preciso te agradecer por ter quebrado a rotina. É muito chato e perde a graça viver num relacionamento em que toda vez que você me olha assim, você logo fecha os olhos, respira fundo, pega algumas roupas e bate a porta. E depois volta. Tem horas que eu não agüento esse seu jeito. Por que é que você nunca grita? Você nunca está aqui para me ver arremessando os seus livros contra a parede. As vezes pratos. Dessa vez eu tive medo. Acabaram-se os pratos. Ri e pensei que talvez tivesse também acabado o amor. Fiquei aqui nessa mesma posição durante horas pensando se você realmente voltaria. E ainda agora eu me sinto sem saber o que fazer. Não sei se te abraço ou te beijo de uma vez. Você chegou tem quase duas horas, trocou de disco sete vezes, tentou ler dois livros. E eu ainda não sei o que fazer. Das outras vezes você abriu a porta enquanto eu já tirava as minhas roupas. Dessa vez a gente ainda não transou. Por onde você andou durante todo esse tempo? Sete dias. Uma semana. Dá tempo de fazer tanta coisa, sabia? Sei lá. É tempo de sobra pra gerar um filho. É tempo suficiente para se apaixonar por outro alguém, mas você voltou. Se olha no espelho. O seu olhar mudou. O que foi que aconteceu? Eu senti a sua falta. Esse quarto fica gigante sem você. É terrível me perder entre seus livros, canções, roupas e cheiro enquanto você sai por aí e eu nem sequer sei se tem se alimentado direito ou fumado demais. Onde é que você vai? Trocar o disco. Pegar outro livro. Agora você vai ficar trocando de livro, disco e voltando para se olhar no espelho até quando? Olha para mim. Sete dias! Eu senti a sua falta. Esse seu silêncio está nos esmagando. Esse quarto está nos matando. Eu preciso de um pouco de ar. Toma um banho. Eu desço e peço a sua pizza favorita e depois podemos tomar duas cervejas ou duas limonadas. Ou a gente pode mudar dessa vez. Andar algumas ruas. Sentar em algum outro bar. Um daqueles botecos bem vagabundos. Pedir dois conhaques e uma porção de azeitonas. Sei lá. A gente pelo menos sai da rotina de vez. A gente transa depois. Dessa vez você não trouxe nenhum dos meus chás favoritos também. Olha, está calor demais e eu realmente preciso de ar. Eu vou fazer os pedidos e depois volto pra gente descer junto essas escadas entre risos e dedos entrelaçados. Alguma vez eu te disse o quanto amo as suas mãos? Dessa vez você demorou uma semana para voltar e deu tempo de pensar em tudo que eu amo em você. Dessa vez eu esperei duas horas para dizer, mas você sabe que eu quero a gente junto pra sempre. Eu amo você. Vai lá e toma logo o seu banho. O seu condicionador continua no canto esquerdo do armário. A sua escova de dente eu troquei. Esquece todo o resto. Eu sei que você está pensando em ir embora de vez, mas não vai. A gente vai continuar voltando porque é assim que tem que ser. Porque pode até não ser perfeito, mas pelo menos a gente fica perto quando o mundo quiser nos engolir lá fora. Porque o amor é assim mesmo. E nós vamos aprender a lidar com isso. Juntos. 


Por Camila Aguilera

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