segunda-feira, 23 de julho de 2012

OS HOMENS TAMBÉM AMAM


No começo? Claro que foi difícil. Olhar para os lados a procura de quem já não voltaria. Tocando cheiros. Sentindo vestígios. Depois o abandono de si mesmo. Tentando acreditar que o tempo curaria. Agora, estava ali no mesmo apartamento. Tantos anos depois. As pernas cruzadas sobre a cama desarrumada, alguns livros espalhados ao seu redor. A barba por fazer. Maria Bethânia ecoando no rádio. Não sei, comigo vai tudo azul. Contigo vai tudo em paz.  quanto tempo a sós com suas anotações e suas memórias? Suas saudades. Ali a sós com seus próprios sentimentos. E que isso lhe bastasse. A campainha. Ignorou. Se aproximou da janela, olhou o movimento da cidade lá embaixo, alguns casais, o barulho das ondas, das buzinas, dos passos, das vozes, da insistência da campainha, dos “eu te amo” sussurrados. Tempo, tempo, tempo. Olhou o calendário. Quarta-feira. Pelo dia poderia ser a mãe ou o irmão, mas ele sabia que não. Sorriu ao sentir o cheiro que sabia que se lembraria para sempre. Olhou fixo para um canto qualquer. Parou. Passou as mãos pelos cabelos. Campainha. Ajeitou as almofadas no único sofá. Campainha. Jogou fora as cinzas de cigarro. Estalou os dedos. Pediu em pensamento pra que desistisse. Ouviu passos se afastarem. Correu até a porta. Abriu. Respirou fundo. Chamou.
- Desculpe, eu estava no quarto ouvindo.. Organizando algumas coisas e... Enfim...
- Tudo bem. Posso entrar?
Que pergunta idiota. É claro, é claro que poderia. Poderia entrar e ficar para sempre.
- Deixe que eu pergunte ao meu sofá... Bom, acho que ele não se importa.
Riram. Cúmplices.
- Não preciso dizer pra que fique a vontade, não é? Vou buscar algo para beber. Vinho ou cerveja? Chá gelado ou água?
- Um vinho.
- Certo.
Andou em passos lentos. Uma dose de uísque. Tentou regular a respiração.
- Seu apartamento continua quase que do mesmo jeito.
- Deve ser porque eu ainda desgosto dele como sempre desgostei. Ainda quero uma casa com um bom jardim, um cachorro, uma lareira... Enfim, você sabe...  
- Os mesmos sonhos então?
- Nem todos. Alguns, sem perceber, eu acabei deixando pelo caminho.
- O mesmo olhar.
- Em uma cara quase envelhecida.
- O tempo realmente passou para nós.
- Pois é.
O silêncio que por vezes constrange.
Por seres tão inventivo e pareceres tão contínuo. Tempo, tempo, tempo, tempo. És um dos deuses mais lindos. Tempo, tempo, tempo, tempo.
Algumas cervejas. Algumas taças de vinho. Outras pessoas.
- Levou realmente a sério seu gosto por fotografias.
- Assim como meu sonho por escrever em jornais.
- Nenhuma nossa.
- Estão guardadas em uma caixa.
- Posso vê-las?
(...)
- Fabrício e...
- Isabel.
- Verdade. Por onde será que eles andam?
- A última vez que a encontrei, ela estava prestes a viajar para Portugal.
- E ele?
- Nunca mais encontrei depois que terminamos a universidade.
- Ricardo e Benjamin.
- Patrícia, Carlos e Luísa.
- Você ainda os encontra?
- De vez em quando, Luísa e Ricardo aparecem por aqui.
- Diga que...
- Direi.
- No Ibirapuera.
- No bar do Marechal.
- Nós éramos realmente bonitos juntos.
Pareces que dizes, te amo, Maria. Na fotografia estamos felizes.
- Eu sinto a sua falta.
- Eu sei.
- Você... Sabe?
- Nunca me deixei desiludir que você também sentiria.
- Faz tanto tempo.
- Faz.
- Olha pra mim. Foi muito difícil pra você?
- O que você acha?
- Eu sinto muito.
- Não sinta muito.
- Você sabe que...
- Não sinta nada. No caso, não finja que sente.
- Não fala assim. Você pode achar que não, mas foi difícil para mim também.
- Posso imaginar o quanto. Largar uma vida quase monótona em um apartamento que você sabia que quase não mudaria. Deixar para trás alguém que praticamente só trabalha para se alimentar, comprar alguns livros, um ou outro disco, viajar uma vez por ano. Realmente deve ter sido muito difícil.
- Eu gostava muito de você.
- Mas gostar não é o suficiente, não é?
- Eu não sei.
- Mas eu sei que não é. E sabe por quê? Eu não mudaria por você. E você muito menos por mim. Você sempre deu valor ao material. Enquanto eu. Casais com pensamentos, planos e sonhos diferentes só funcionam em canções, novelas e filmes. E os opostos podem até ter esse lance de se atraírem, mas não duram. Entende?
- Você nunca mais se envolveu com ninguém?
- Para que? Para estar pela metade com outra pessoa e ouvir cobranças o tempo todo?
- Você sempre foi... Eu não sei, mas você sempre me pareceu que viveria muitas paixões e...
- Eu as vivi. Encontrei. Esbarrei nas paixões. Quando não suportava mais a solidão saia por aí e as inventava e as recriava. Só que eu não sou para dar certo, entende? Se eu der certo com alguém perco o foco. Se eu der certo com alguém vou escrever sobre o que?
- Sobre um amor que deu certo.
- Amor de verdade a gente só tem uma vez na vida e o meu não vingou.
- Eu te amei muito, só não...
- Só não foi o suficiente?
- Eu não sei mais o que te dizer...
É desconcertante rever o grande amor...
- Mais um pouco de vinho?
- Não, acho que é hora de ir.
- Tudo bem.
- Eu só não entendo uma coisa. Se você diz que me amou. Então por que nunca lutou por mim? Sabe, por esse sentimento?
- Porque eu senti desde aquela época que eu só escreveria de verdade quando desse errado.
- Eu realmente preciso ir.
- E eu preciso escrever sobre você.
- Coisas tristes?
- Apenas coisas que não fazem mais sentido.
- Devo agradecer por seu sofá ter me deixado entrar?
- Seria de bom grado.
Sorriram pela segunda vez.
- Boa noite.
- Boa noite.
Alguns passos.
Uma porta fechada.
Aberta.
- Espera...
Uma fala quase inaudível.
O silêncio do apartamento. O silêncio do corredor. Talvez devesse correr porta afora e dizer. Talvez gritar. Ou apenas dizer em um tom de voz que não beirasse a loucura. Preferiu se voltar para si. Deixou as palavras morrerem na garganta, ecoarem no pensamento, permanecerem no coração.
- Volta que eu mudo. Volta que eu te amo. Volta que eu...
Fotografias.
Duas pessoas.
Um amor.
- Teriam sido anos dourados?
Sorrisos. Abraços. Dois perdidos. 
- É in-su-por-tá-vel rever o grande amor, Bethânia! É esgotável.
Mais algumas cervejas. Brindou com a saudade. Com o amor que durou somente enquanto o olhar era quase infantil. Brindou com o passado que não voltaria. Com os filhos que nunca teve. Com a mulher que sempre lhe tirava do seu estado normal.
Fosse ainda jovem e calçaria seus sapatos e sairia por aí bebendo em todos os bares. Fosse ainda jovem. E então daria risada e choraria. Fosse ainda jovem iria até a sua casa e gritaria seu nome, lhe diria palavras de amor e ódio.
- Nada de recados, Bethânia. Fosse eu ainda aquele rapaz de antes.  


Por Camila Aguilera

2 comentário(s):

sobrefatalismos disse...

Menina, que maravilha ler isso aqui. Eu sou apaixonada por textos que mesclam a musicalidade brasileira em suas entrelinhas. E você tem uma escrita que muito se assemelha ao célebre Cristovão Tezza. Conhece-o? Procure por "Um Erro Emocional" nas livrarias. Você não vai se arrepender. Beijão.

Camila Aguilera disse...

Agradeço ao elogio. Ainda não conheço Cristovão Tezza, mas assim que possível, vou em busca de algo dele pra ler.