segunda-feira, 27 de agosto de 2012

OUSE SENTIR


Acho que no fundo de todo mundo a hipocrisia se remexe e por vezes grita enquanto a gente tenta segurar pra não morrer de decepção com a gente mesmo. Quando digo que todas as pessoas são hipócritas, estou me colocando no meio delas. Como quando choro pela minha cachorra morta no café da manhã e me alimento do frango morto de alguém no almoço. Como quando escrevo sobre amores que deram certo, embora já não acredite tanto assim. Ou até mesmo quando sorrio e peço que se cuide, quando na verdade, quem está precisando de cuidados sou eu com esse coração que qualquer dia desses acaba comigo, mas não se esquece de você. Essa minha paixão que me deixa tão hipócrita quanto essas pessoas que por vezes critico. Veja bem, eu te desejo que seja feliz ao lado dessa pessoa que você está e me suicido pensando que gostaria de ser eu ao seu lado. É sério. Perdi as contas de quantas vezes ensaiei chegar até você. Meu espelho já não suportava me olhar. Os ouvidos das paredes do meu quarto já estavam quase me mandando calar a boca. Ensaiei te tocar e te dizer palavras que fizessem um mínimo de sentido. Qualquer palavra ou sentimento que te fizesse ficar ao meu lado. Ensaiei um amor. Ensaiei. A diferença entre eu e essa pessoa que te abraçabeijasegura agora é a falta de medo. O mínimo de confiança. Eu teria muito mais paixão do que ela nos lábios, mas eu não ousei. Jamais ousei. Só fingi não sentir enquanto desmoronava. Desmoronava. 

Por Camila Aguilera

domingo, 19 de agosto de 2012

POR ENQUANTO


Há algo que me persegue.
Seria possível a morte de todas as coisas?
E então eu.
Resto.
Não existe resposta para quem sou.
Muito menos para o que sinto.
Há algo que me dói em meio ao riso.
E não quero sentir.
Nada.
Mas quando é que isso se torna possível?
Não entendo.
Faço o que?
Escrevo.
Incapacitada de heterônimos.
Ou novas personagens.
Penso.
Só que não passa.
Mas o que haveria de passar?
Fosse fadiga.
Fosse tristeza.
Fosse o que.
Eu não sei.
Passar o que?
O tempo.
O nada.
Minto.
O tempo passa.
O nada, eu nem ao menos sei o que é.
Entendam-me.
Ou não.
Eu vejo as pessoas indo.
Não sei pra onde.
Só que elas vão pra algum lugar.
Eu apenas observo.
As pessoas andam.
Ou até mesmo correm.
E eu me sinto rastejar.
É uma maneira de não perder tudo de vista.
Rastejo.
Por dentro.
Por fora.
Existe um buraco.
Um buraco cheio.
Tentem visualizar.
Eu estou quase terminando.
É um buraco.
Cheio.
Cheio de que?
Cheio de mim.
Esse buraco sou eu.
Eu sou o que preenche.
Transbordo histórias.
E estórias.
Sentimentos.
E não sei o que sinto.
E qual o problema?
Eu não sei.
E por vezes pode ser bom não saber.
Independente do que.
Talvez eu só precise de um pouco mais de calma.
E algumas orações.
Perdoem-me caso o pior aconteça.
Devo desculpar-me?
Eu estou quase.
Ainda respiro.
E escrevo.
Penso.
Só não esqueço.

Camila Aguilera

domingo, 12 de agosto de 2012

Para José dos Santos Baptista



É, pai, fácil não foi. Alguns dias não foram nada tranquilos. Doeu sim. Chorei. Senti. A gente sempre sente. A gente tá sempre sentindo. Algumas vezes, eu fingi. Certo, durante anos, eu fingi. Sentia profunda vergonha por te amar. É sério. Eu recebia suas cartas e no final delas tinha sempre algo como “o pai ama muito você” e eu sempre respondia que também te amava. Era verdade. Só que eu escrevia cada uma dessas cartas no meio da madrugada pra que ninguém pudesse sequer imaginar o que eu confessava. A mamãe não sabia, nem meus avós, ainda menos os meus amigos. Tem visto o seu pai? Você não sente falta dele? Você consegue gostar dele? Não. Não. Não. Ou algo assim. Vazio. Vazio mesmo, sabe? Acho que nunca me viram chorar por você. Sou melhor que a Fernanda Montenegro quando finjo uma felicidade que não existe. Ou ao menos eu era. O vô, eu penso que às vezes percebia algo, mas ele nunca comentava. Acho que ele soube muito bem fazer o papel de super-herói, mesmo que não soubesse como perguntar como eu me sentia. Só que hoje em dia tanta coisa mudou. É, pai, não é fácil. A vida adulta é chata e por vezes entedia. Eu me tornei uma boa pessoa. Ou algo perto disso. Só que eu erro. Erro tanto. Sinto medo. Odeio o tempo e esse meu pensamento de que ele está passando mais rápido do que deveria. Estou sempre me apaixonando. Por livros, canções, pessoas. Bom, não são tantas pessoas. Nos últimos quatro anos, foram apenas três. No começo sempre fico feliz, mas depois. Nunca sei exatamente o que fazer com meus sentimentos e. Dói. Choro. Choro pra caramba. E o pior, de vez em quando, é na frente das pessoas. Será que estou regredindo ou só não tenho mais vergonha de sentir? Não era bem esse tipo de coisa que gostaria de te dizer hoje. Só que eu sinto medo de me parecer demais com você e nunca superar ter perdido um grande amor. Mesmo que eu não tenha, de certa forma, vivido ele. O senhor consegue me entender? Espero que sim, mas não faz mal se não conseguir. Eu só queria que você soubesse que às vezes – ou quase sempre – me sinto frustrada como o senhor com relação a minha mãe. Só que nunca me arrependo de sentir. Acho que é bom se apaixonar. Ainda mais se for todos os dias da vida por uma única pessoa. Não, eu ainda não encontrei essa pessoa. Ao menos, eu acredito que não, já que ainda não liguei ninguém à canção “Último Romance”. Ah, isso é algo que o senhor não sabe, mas Los Hermanos é a minha banda favorita. Aquela banda daqueles barbudos que cantavam “Ana Júlia”, sabe? É, tem muita coisa que o senhor não sabe sobre mim, mas uma das principais é que sou completamente apaixonada por música. Desde Caetano e Bethânia até Cícero, Transmissor, 5 a Seco e um bando de novos artistas que ter surgido e me encantado a cada semana. Sou apaixonada por livros também, eu faço Letras e isso, o senhor sabe. Eu te contei nas férias. Tem um escritor gaúcho, o Caio Fernando Abreu, que é o autor que eu mais gosto. De vez em quando é como se ele tivesse escrito pra me machucar um pouco mais ou pra simplesmente me fazer entender que eu não sou a única que passo por certas coisas na vida. Mas falando em férias, não me arrependo nenhum pouco das últimas, pai. Sinto um gostar muito grande por julho. É inverno. Faz sol. Eu sempre sorrio. E dessa vez teve bons dias na terra da garoa. Na sua terra. Parece que nada pode realmente durar numa cidade que está em constante movimento, mas eu tenho lá minhas desconfianças se realmente não existe amor por aí. Senti-me aquecida pelos amigos que encontrei, pelas ruas que andei. Tive tantas paixões. Não duraram mais do que minutos, mas foram tantas! Só que o mais bonito, pai... O mais bonito foi o teu olhar ao ver eu e meus irmãos. Juntos. Pela primeira vez. Eu acho que sei o que o senhor sentiu naquele momento e não há palavras pra descrever. Só que eu sei. Olha, eu já estou quase terminando. Na verdade, acho que não há mais nada a ser dito. Prometo que escreverei outras  vezes. Eu sei o quanto o senhor gosta de cartas. E isso é algo comum entre a gente. Fica bem. Se cuida por aí. Não demora pra aparecer, certo? Eu estou com saudade. E a gente tem que “recuperar” o tempo perdido. Dê um beijo nos meus irmãos. E não esquece, eu amo você.

Com amor, 

Camila Aguilera Baptista

sábado, 4 de agosto de 2012

DIA 04


Guardei dois em uma gaveta
Tranquei um outro atrás da porta
Enviei três deles em cartas sem destino
Um deles eu vi dentro de uma garrafa que esvaziei
Dentro de um trem outros dois me acenaram
Atrás de uma tela eu perdi a noção de quantos tive
Agora são cacos
São nada
Vinguei-me
Nunca mais dormi
Derrotei utopias
Desisti dos sonhos
Quis apenas realidade
Matei-me.

[Camila Aguilera]