domingo, 12 de agosto de 2012

Para José dos Santos Baptista



É, pai, fácil não foi. Alguns dias não foram nada tranquilos. Doeu sim. Chorei. Senti. A gente sempre sente. A gente tá sempre sentindo. Algumas vezes, eu fingi. Certo, durante anos, eu fingi. Sentia profunda vergonha por te amar. É sério. Eu recebia suas cartas e no final delas tinha sempre algo como “o pai ama muito você” e eu sempre respondia que também te amava. Era verdade. Só que eu escrevia cada uma dessas cartas no meio da madrugada pra que ninguém pudesse sequer imaginar o que eu confessava. A mamãe não sabia, nem meus avós, ainda menos os meus amigos. Tem visto o seu pai? Você não sente falta dele? Você consegue gostar dele? Não. Não. Não. Ou algo assim. Vazio. Vazio mesmo, sabe? Acho que nunca me viram chorar por você. Sou melhor que a Fernanda Montenegro quando finjo uma felicidade que não existe. Ou ao menos eu era. O vô, eu penso que às vezes percebia algo, mas ele nunca comentava. Acho que ele soube muito bem fazer o papel de super-herói, mesmo que não soubesse como perguntar como eu me sentia. Só que hoje em dia tanta coisa mudou. É, pai, não é fácil. A vida adulta é chata e por vezes entedia. Eu me tornei uma boa pessoa. Ou algo perto disso. Só que eu erro. Erro tanto. Sinto medo. Odeio o tempo e esse meu pensamento de que ele está passando mais rápido do que deveria. Estou sempre me apaixonando. Por livros, canções, pessoas. Bom, não são tantas pessoas. Nos últimos quatro anos, foram apenas três. No começo sempre fico feliz, mas depois. Nunca sei exatamente o que fazer com meus sentimentos e. Dói. Choro. Choro pra caramba. E o pior, de vez em quando, é na frente das pessoas. Será que estou regredindo ou só não tenho mais vergonha de sentir? Não era bem esse tipo de coisa que gostaria de te dizer hoje. Só que eu sinto medo de me parecer demais com você e nunca superar ter perdido um grande amor. Mesmo que eu não tenha, de certa forma, vivido ele. O senhor consegue me entender? Espero que sim, mas não faz mal se não conseguir. Eu só queria que você soubesse que às vezes – ou quase sempre – me sinto frustrada como o senhor com relação a minha mãe. Só que nunca me arrependo de sentir. Acho que é bom se apaixonar. Ainda mais se for todos os dias da vida por uma única pessoa. Não, eu ainda não encontrei essa pessoa. Ao menos, eu acredito que não, já que ainda não liguei ninguém à canção “Último Romance”. Ah, isso é algo que o senhor não sabe, mas Los Hermanos é a minha banda favorita. Aquela banda daqueles barbudos que cantavam “Ana Júlia”, sabe? É, tem muita coisa que o senhor não sabe sobre mim, mas uma das principais é que sou completamente apaixonada por música. Desde Caetano e Bethânia até Cícero, Transmissor, 5 a Seco e um bando de novos artistas que ter surgido e me encantado a cada semana. Sou apaixonada por livros também, eu faço Letras e isso, o senhor sabe. Eu te contei nas férias. Tem um escritor gaúcho, o Caio Fernando Abreu, que é o autor que eu mais gosto. De vez em quando é como se ele tivesse escrito pra me machucar um pouco mais ou pra simplesmente me fazer entender que eu não sou a única que passo por certas coisas na vida. Mas falando em férias, não me arrependo nenhum pouco das últimas, pai. Sinto um gostar muito grande por julho. É inverno. Faz sol. Eu sempre sorrio. E dessa vez teve bons dias na terra da garoa. Na sua terra. Parece que nada pode realmente durar numa cidade que está em constante movimento, mas eu tenho lá minhas desconfianças se realmente não existe amor por aí. Senti-me aquecida pelos amigos que encontrei, pelas ruas que andei. Tive tantas paixões. Não duraram mais do que minutos, mas foram tantas! Só que o mais bonito, pai... O mais bonito foi o teu olhar ao ver eu e meus irmãos. Juntos. Pela primeira vez. Eu acho que sei o que o senhor sentiu naquele momento e não há palavras pra descrever. Só que eu sei. Olha, eu já estou quase terminando. Na verdade, acho que não há mais nada a ser dito. Prometo que escreverei outras  vezes. Eu sei o quanto o senhor gosta de cartas. E isso é algo comum entre a gente. Fica bem. Se cuida por aí. Não demora pra aparecer, certo? Eu estou com saudade. E a gente tem que “recuperar” o tempo perdido. Dê um beijo nos meus irmãos. E não esquece, eu amo você.

Com amor, 

Camila Aguilera Baptista

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