sexta-feira, 5 de outubro de 2012

OS HOMENS TAMBÉM AMAM II

Sexta-feira. 07:46 da manhã. Há dois dias não durmo. E não é necessário citar aqui o dia do mês em que te escrevo e nem o lugar do planeta onde me encontro. Você vai saber daqui algumas linhas, mas o mais importante é que você saiba que te escrevo por vários motivos, dias, sentimentos. Saudades, talvez. Não fique com essa cara de quem está se perguntando: mas por que ele resolveu reaparecer justamente agora? Fique tranquila. Eu não vou voltar a fazer parte da sua vida. Você não vai abrir a janela da sua casa e dar de cara comigo no seu jardim. Eu só estou te escrevendo. Entenda isso e simplesmente leia tudo o que será escrito por mim nesse papel. Espero de verdade que saia algo decente dessa vez, porque eu já perdi a conta de quantas folhas amassei. Não se pergunte se não seria mais fácil um e-mail ou uma mensagem no celular, pois nós dois sabemos que sim, mas seria também mais frio. E de frio bastam esses primeiros dias de primavera que resolveram amanhecer com cara de inverno. Sem falar que eu acho muito mais bacana tocar em papeis que foram tocados pelas mãos de outra pessoa que te escreve porque está com saudades, te ama ou quer no máximo, matar o tempo te contando sobre as últimas coisas idiotas que aconteceram. Como você está? Eu cheguei na cidade há quatro semanas após ter passado os últimos seis anos da minha vida viajando de um lado pro outro do mundo. Vivi de maneira absurda. Conheci cidades. Escrevi horrores. Aprendi outros idiomas. Fiz alguns cursos. Seis anos buscando por algo que me fizesse crer que tudo estava fazendo sentido. E nada. Outras cidades. Outros ares. Aumentei minha coleção de canecas. Troquei meu par de tênis quatro vezes. E voltei pra casa com aquela sensação de: que merda que eu fiz da minha vida? Aprendi a fotografar de maneira decente e te mando algumas fotografias que fiz. Em uma delas me sinto tão perdido que não consigo imaginar um jeito de fazer com que o sol me alcance. Você deve se lembrar de como eu sempre gostei desse lance de registrar os dias, as noites, as luzes. Você dentro deles. Te mando também um retrato meu, meus pais dizem que mudei muito. Eu não sei. Vi minha cara refletida todos os dias durante esses anos e não consigo perceber tantas mudanças assim. Como estão os preparativos para o seu casamento? Sim, eu sei que você se casa dentro de algumas semanas. Sinto-me frustrado. Sempre fui o seu amigo. O cara que você corria pra chorar por todos os outros caras idiotas que te dispensavam por não saberem valorizar todas as qualidades que você sempre teve. Deus, como eles podiam ser tão escrotos em te perder?! Durante esse tempo que estive fora, esperei que você me escrevesse sobre seus inúmeros e nada duradouros relacionamentos, mas nenhuma carta ou ligação. Um e-mail que fosse. Encontrou outro ombro onde chorar? Eu poderia te dizer que senti muito por você simplesmente sumir e não me dar mais noticia alguma da sua vida. Só que não vejo sentido em te apontar o dedo sendo que eu fiz exatamente o mesmo. Eu voltei há quatro semanas e me sinto sufocado. Essa cidade continua quase que do mesmo jeito. Me sinto novamente com meus dezenove anos, provando do primeiro beijo ou brincando de esconde-esconde. Todos souberam da minha volta. Todos querem ver o filho do Seu Antenor e da Dona Maria. Acho tão chato tudo isso. Um verdadeiro porre! Falando em porre, tomei um ontem. Fui naquele bar onde tomamos nossa primeira cerveja quando completamos a maioridade. E por isso te escrevo hoje, ainda que sinta a cabeça latejar. Desde que coloquei os pés nessa cidade, no nosso quarteirão, no meu quarto. Desde que... Eu quase invadi a sua antiga casa. Pode parecer loucura, mas tenho sido assombrado por inúmeras recordações. Talvez essa não seja a melhor palavra para ser usada aqui, mas não consigo pensar em outra para substituí-la nesse momento. Você só precisa saber o que demorei seis anos pra perceber, mas que agora tenho total percepção, você sempre me fez muita falta. Fiquei pensando no quanto eu gostaria que você estivesse comigo em todos os lugares por onde passei. Certamente faria fotografias realmente bonitas de você sorrindo em cada esquina que dobrei. Hoje, eu só preciso saber se você realmente está bem. Não precisa me responder se não estiver com vontade. Ou se nada fizer sentido. Eu só não posso deixar de te falar sobre tudo o tenho sentido. Aconteceu ontem o que me deixou fora de controle e me fez sentar naquele mesmo bar e pedir doses de uma vodca vagabunda. De vez em quando, a gente tem a péssima ideia de querer reviver o passado. E ontem foi um desses dias. Comecei a revirar caixas e mais caixas de fotos, livros e cadernos que a minha mãe sempre fez questão de guardar. Eu devia ter uns seis ou sete anos. Não sei ao certo. Sei que em um daqueles dias de inverno em que ficávamos sem nos ver por causa das suas viagens que duravam três ou quatro semanas na casa da sua avó, eu acabei por fazer um desenho. Naquela época, eu não saberia escrever com precisão o que acontecia. Bom, eu demorei muito tempo para saber. E acredito que você nunca percebeu. Existe alguém retratado naquele desenho tão mal rabiscado. Os olhos estão tristes. Não há nenhuma cor em qualquer canto daquele desenho. Nada de feliz. Nada. Sai desnorteado. Bebi como nunca tinha feito na vida. Passei por sua casa e joguei pedras na janela na esperança de você saísse de lá e viesse – uma única vez – me consolar. Sentei-me no meio fio. Frágil como nunca imaginei que pudesse me sentir. Fiquei olhando pra gente correndo de um lado pro outro da rua sem se importar com nada. O desenho em mãos. Os olhos vermelhos. Cansados. O coração como se tivesse sido esmagado. Por suas mãos. Sem chão. Sem cor. Ou céu. Encontro-me depois de vinte e tantos anos decifrando o que era evidente. E o que me resta é uma risada cortada pelos soluços de quem percebe que é tarde demais. Hoje – ou ontem, não tem importância -, eu tive a infeliz certeza de que pensava exatamente em você enquanto fiz aquele desenho. Aquela criança triste ali rabiscada era eu sem você. 

Por Camila Aguilera

1 comentário(s):

sobrefatalismos disse...

Muitas vezes, o necessário é apenas desabafar o passado com quem já perdemos.
Mas será definitivo?
abraços.