domingo, 4 de novembro de 2012

04 DE NOVEMBRO DE 2012




"Mas deve haver algum jeito exato de conta essa história que começa e não sei se termina ou continua assim: Sonhei que você sonhava comigo. Ou foi o contrário? Seja como for, pouco importa: não me desperte, por favor, não te desperto."
[CAIO FERNANDO ABREU, Por trás da vidraça] 

Você sempre chega sem pedir licença. E vai continuar sendo assim. Eu sei. Talvez a culpa seja minha. Afinal, eu te dei liberdade demais pra ir e voltar quando bem entendesse. Só que eu sempre quis te pedir pra que não aja mais dessa maneira. A gente precisa ter calma pra entender o que acontece aqui dentro de mim. Porque o que acontece dentro de você, eu prefiro não ter certeza. Espera. Eu não estou pedindo pra que você vá embora. Será que você não faz ideia do quanto eu peço por isso todos os dias antes de fechar os olhos e dormir? Senta aí e me deixa mais um pouco por aqui digerindo toda essa sua presença que de repente tomou conta de todo o quarto. Como se não bastasse a vida. Tente entender que se eu fico quieta assim é porque preciso de um pouco de tempo pra pensar e não ficar ainda mais irremediavelmente apaixonada por você. Não arrombe a porta. Não quebre a janela. Você sabe que basta me pedir e eu te deixo invadir uma outra vez a minha vida. É, eu nunca disse que mudaria. Você chega, me rouba os sentidos e enquanto eu finjo não me abalar, você apenas sorri. Só que dessa vez eu não vou me mover. Nem um centímetro. Isso tudo tem que durar mais do que todas as outras vezes. Não vamos pular etapas. Não darei um passo que seja para chegar mais perto de você. Pegue algo pra beber. Por que você não me avisou que viria? Eu teria dado uma ajeitada em tudo. Eu sei que você não liga pra esse tipo de coisa, mas. Nos últimos dias tudo foi tão estranho, eu devia ter imaginado que você chegaria. Sempre penso demais em você quando novembro se aproxima. Penso. Claro que penso em você em todos os outros dias, só que você entende que é sempre mais durante essas semanas. Esquece. Eu nem sei o motivo pra falar tanto dessa maneira. Por favor, dê logo os próximos passos. Menos de dois metros nos separam. Até poucos minutos atrás eram mais de setecentos quilômetros. Chegue até mim e me faça entender de uma vez por todas que não importa o quanto eu negue, eu sempre serei tua. Deixe todo o resto pra depois. Pare de reclamar que a casa é quente demais. Que o quarto é pequeno demais. Você não gosta da cor que eu escolhi para as paredes. Nada disso é importante. Eu só preciso que você preste atenção em tudo que eu tenho pra te dizer. Não, eu não quero e nem vou falar nada sobre amor. Esse não é o momento. Vai que eu te assusto? Eu não quero nem sequer te olhar, mas eu nunca aguento por muito tempo. Meu Deus, eu tô sempre com uma saudade absurda de você! Eu te abraço e me esqueço de quantas vezes pensei estar à beira do precipício quando tão perto de você. Você que me acolhe. Enquanto digo algumas frases que não fazem sentido algum fora da minha cabeça. Você foge do meu olhar e me diz que eu preciso parar de agir como uma criança que tem medo. Meu bem, eu nem tenho tantos medos assim. Só não gosto de tempestades. E também da maneira como você consegue fazer com que eu me sinta. Mas todos hão de concordar que não é muito legal alcançar o céu e logo depois sentir que ele está desabando. Você balança a cabeça em tom de desaprovação e me diz que tudo ficará bem dessa vez. E então eu me pergunto: como pode tudo ficar bem depois que você for embora de novo? Sinto o seu olhar sobre mim enquanto se reaproxima. Há quanto tempos estamos aqui? Não quero mais me sentir nesse estado nauseante. Eu me vejo cedendo um pouco mais a cada vez que te olho. Ora, não fique sorrindo desse jeito! A chuva caindo lá fora e a gente se abafando aqui nesse quarto. Enquanto eu tento manter tudo em ordem. Dentro de casa. Dentro do peito. E o coração que trai a gente? Você diz que gosta de mim. De que maneira? Eu penso nos anos que se passaram. Nos dias que não voltam mais. No tanto que mudamos. Você coloca um disco qualquer. Eu mexo o café até que ele esfrie. Eu tenho um nó por dentro do tamanho do amor que sinto. A noite está quase terminando. Daqui a pouco, a chuva se despede também. Deita do meu lado. Entrelaça os nossos dedos. O sol não decide se volta ou se ausenta de vez. Enquanto a gente não decide o que faz dessa vida. Normalmente, as pessoas vão embora e eu fico aqui procurando algo que preencha o vazio que por vezes elas deixam. Só que você continua sendo essa canção que toca ao fundo, aquele vídeo, aquele texto. Esse texto. Eu ainda nem consegui dizer que te amo, mas você sabe mesmo quando todas as palavras se perdem em meio aos meus silêncios. Você me conhece tão bem. Larga esse livro. Eu preciso te dizer que não quero mais. Você me explica o que é blefar. É, meu bem, é apenas um blefe. Mal ensaiado. Mal encenado. Mal dito. Você sorri com o canto da boca. Eu penso que logo mais tudo vai desmoronar. Você me pede pra viver o hoje. Eu mudo a canção. A gente poderia dançar, mas a gente só se olha. Eu canto uma frase na sua orelha mais tarde. Eu só preciso que você fique. Eu me entrego. Eu te leio todas as cartas. Eu te falo de amor. Eu me calo. Você me abraça e eu te beijo os olhos. Eu vou querer você. A gente nunca tem certeza, mas eu quero. Como quis ontem. Todos os dias desde o dia quatro de novembro de dois mil e oito. Eu te quero sempre. Eu te amo. Você se afasta. Você vai embora, não é? Eu aponto a porta. Eu quero gritar, mas nada sai. Você silencia comigo. Você se afasta mais. Um quarto pequeno demais se tornando enorme em segundos. Eu vou atrás. Sem me arrepender. Eu volto a estaca zero. Eu te espero. Eu estou sempre esperando que você venha e abra a porta devagar, mas não faz mal se não for com cuidado. Eu me acostumei. Eu não me importo. Eu te amo. Eu não sei se você entende, mas eu te amo. Eu me perco. Enquanto te olho. Você já mal me ouve. Eu te amo. Daqui a pouco algum barulho ridículo nos tira desse momento, mas você sabe que vai continuar sendo assim. Eu vou querer te tocar depois que o sonho terminar. Depois que o disco acabar. Eu vou me lembrar de você em todos os lugares. Eu vou escrever sobre você e esse amor, me basta um papel. Eu só preciso de mais algumas horas pra te contar sobre os meus planos que envolvem você. Quando a gente se formar... Lembra disso? Quando a gente se formar, a gente vai se ver pelo menos quatro vezes no ano. Lembra? Só mais cinco minutos pra que eu possa parar de sentir tanta saudade. Só mais alguns segundos pra que eu possa dizer que te amo e ver você sorrindo. Deixa eu olhar só mais uma vez dentro dos seus olhos e ter certeza de que você sabe. Sempre soube que eu...

"Eu sonhei que estava exatamente aqui, olhando pra você
Olhando pra você, exatamente aqui..."
[JENECI e TULIPA, Dia a dia Lado a Lado]