quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

NOTA SOBRE UMA CENA QUALQUER

Uma criança de três anos e um bêbado/andarilho/indigente – indique aqui o adjetivo que quiser -. Eles se divertem. Uma criança de três anos e um mendigo de. Alguém que começa a viver. Alguém que sobrevive todos os dias. Ele a ensina a fazer bolas de barro. Ele pede para que ela as acerte nele. Ele aprendeu a ser acertado todos os dias. Ela ainda tem muito o que aprender. Ele já não se importa. Ninguém sabe o que ele traz por dentro. Se tinha sonhos, já não se recorda. Talvez o próximo passo apenas o leve até o bar. Talvez o próximo passo seja ficar um pouco mais até que alguém a retire dali. Onde já se viu um bêbado/mendigo/inopioso – continue indicando aqui os adjetivos que quiser – querer brincar com o seu filho, não é mesmo? Ninguém sabe o que ele carrega por dentro e ele não vai explicar porque ninguém entenderia. Ou estaria disposto a saber. 

Por Camila Aguilera 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

NOTA SOBRE O ÚLTIMO ROMANCE


Nos conhecemos. Nos beijamos. Não que nos lembrássemos com perfeição. A bebida - por vezes - causa isso. Além de que não me deixe esquecer: ela deve ser evitada o máximo possível. Em contrário a isso, desejo não esquecer você. Ao menos por enquanto. Lembre-se de quando tudo começou. Naquele segundo encontro. Num bar. Insistindo em (re)começar pela bebida. Tentando manter o foco em assuntos sérios. Só que existia vontade ali. Em mim. Em você. E logo transbordaria. E tanta gente ao redor sem entender. E tanta gente ao redor sem saber de nada. Só a gente sabia. E nem sabia tanto assim sobre o que estava por acontecer. O que estava por vir. O que eu sei - e você também sabe - é que temos teimosia de sobra pra tentar quantas vezes for necessário. E não venha me dizer que não. A gente vai chegar longe por mais que você me diga pra não pensar tanto no futuro e eu de repente esteja com os pés grudados na razão. Ou ao menos estive. Ou ao menos tentei. Não sei dizer. Não sei ser mais precisa. Sei que é bom te ter agora. Sentir saudade logo após você ter me dado um beijo e ido embora. Você volta amanhã. Ou volta na semana que vem. Ou eu te encontro. Em algum desses dias de calor. Ou de frio. O fato é que te espero. O fato é que você também me espera. Esperamos porque existe algo que nos faz querer ficar por perto. Existe algo de realmente bonito enquanto reparo nos seus passos quando acaba de chegar e caminha até mim. Eu não sei exatamente como te pedir pra que continue perdendo seu tempo comigo, mas eu acho que a gente deve continuar tentando. Eu perderia um tempo comigo. Não pode ser tão ruim assim. Eu posso te falar sobre o último disco de Caetano ou de algum desses cantores da cena independente. Você me fala das canções que mais gosta. Você me conta sobre seu passado. Sobre o que te deixa bem. E eu tento. Eu te mostro algumas fotografias e te conto o que me deixa bem. E você tenta. A gente se conhece um pouco mais. Eu te leio um poema. A gente reflete sobre uma frase ou outra. Eu te conto que gosto de café. Clichê. Gosto de Caio Fernando Abreu. Clichê. Leio Gabito Nunes. Clichê com gosto de vergonha. Não sou muito interessante, mas eu prometo não te entediar demais. Fumo. Bebo. Bebo pra me distrair. Pra esquecer. Pra fingir que estou bem. Pra não perceber o tempo passar. A gente pode entrar no seu carro e ouvir repetidas vezes a mesma música do CBJr. A gente pode dar uma volta. Enfeitar domingos. E todos os outros dias da semana. A gente divide um céu amanhecendo. A gente se pede em namoro quantas vezes for preciso. A gente faz planos pra quando casar e os dois Boxers que queremos ter. A gente pode se acostumar. Não se precipitar. A gente pode tentar uma outra vez e esquecer todas as outras que não deram certo. A gente vive um último romance – mesmo que depois dele ainda venham vários -. A gente se apaixona um pouco mais. Por mim. Por você. A gente se apaixona todos os dias. Por mim. Por você. Por nós.

Por Camila Aguilera  

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

OUTUBRO

Já que amanhece outra vez.
E o que fizemos?
Além de andar por aí.
Além de beber em algum bar.
Além de flertar com duas ou três pessoas.
Além de pegar um ônibus e descer na cidade vizinha.
Além de pensar.
Além de respirar.
Além de correr.
E andar.
Já que anoitece outra vez.
E o que fizemos?
Além de escrever.
Além de ouvir.
Além de ver.
Além de não sentir.
Além de escurecer.
O que o dia fez?
Além de tentar.
Além de tentar.

Além de tentar que a gente vivesse dentro dele.

Por Camila Aguilera 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

DIA 18

Dezoito de setembro de dois mil e treze. Já que amanhece outra vez. E eu podia te falar sobre os próximos dias que serão de primavera. Sobre antigas paixões. Falar sobre os últimos discos que ouvi. Os livros que li. Sobre imagens. E esse céu azul que vai colorir lá fora. Poderia escrever sobre antigas paixões. Eu poderia inventar qualquer coisa para que algo soasse novo por aqui. Eu queria falar sobre os dias. Sobre a noite em algum lugar que não conheço. Ou conheço. E pertenço. Apenas não sei. Queria falar da infância. Ou da inocência que não sei quando perdi. Do meu sabor de sorvete favorito. Eu deveria gastar maços de cigarro e doses de qualquer bebida barata até que alguma inspiração me tomasse. Eu deveria escrever sobre todos os sentimentos em textos como se isso fosse o meu ato de vomitar aquilo que não vem sendo bem digerido. Eu deveria? Eu quero o amor. E não o quero! Dispenso pontos fracos enquanto aprendo o que é ser forte, enquanto dou risada do que já passou e finjo ser verdade tudo que escrevo. Enquanto não viro uma esquina e me apaixono de novo. Enquanto não viajo e não me atento a centenas de pessoas passando por mim numa cidade como São Paulo. Enquanto não mudo de lugar, de tom. Enquanto não acontece nenhum impulso que me faça escrever algumas dezenas de linhas. Enquanto não acontece o que não sei, só posso escrever isso para mim e consequentemente para vocês: nada mais tumultuante que esse vazio por dentro. 

Por Camila Aguilera 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Nota sobre o sonho

Existe dentro de nós algo que sempre nos faz querer permanecer dentro de um sonho. Ainda mais dentro daqueles que nos trazem de volta pessoas que você daria tudo – não reparem no exagero contido aqui – para poder abraçar e sentir que está tudo bem por alguns segundos. O sonho é essa possibilidade do encontro – ou do reencontro, que seja -. Só que o sonho também atordoa. Porque a gente sabe que o despertador logo toca. A gente sempre sabe. Até mesmo dentro do próprio sonho há algo que beire sempre a consciência. E é isso que nos desperta e não nos deixa permanecer dentro deles por mais um ou dois minutos. Nem mesmo se for por amor ou saudade, a gente sempre acorda porque tem que acordar.

Por Camila Aguilera 

domingo, 14 de julho de 2013

Dia 15

Quinze de julho de dois mil e treze. Me canso de ler Gabito Nunes e todo aquele blábláblá do seu romance “Juliete nunca mais”. Ligo Secondhand Serenade. Tento me apegar na releitura de “A insustentável leveza do ser”. Repasso algumas páginas de “O encontro marcado”. E nada. Nenhum cigarro. Ou vodca. Nenhuma cerveja. Apenas essa voz de um cantor que nem conheço a cara, que não me lembro de onde tirei. Sei. Claro que sei. Mas finjo que esqueço. Faz parte de todo um trabalho que tive para esquecer. Não essa música ou esses romances. Você sabe do que estou falando. Ou o que estou tentando dizer. Mas não digo. E nem ao menos sei se ao ler o que escrevo conseguirá relacionar as palavras a você. Ou ao que eu sentia. Nos perdemos. Ou me perdi? Você não se verá por aqui. Tenha calma. Tenho calma. Tento escrever. Tento encontrar um sentido, mas me esqueço do que tanto procuro. Acende um cigarro. Tire as roupas, tome um banho. Espere um mês. Daqui a pouco, eu termino. Dê-me alguns dias, algumas semanas. Nada tem soado fácil. Tem algum tempo. Alguns meses. Talvez já esteja assim há mais de um ano. E só agora percebo. Não. Não que não tenha percebido. A gente percebe que algo mudou. Só que pode ser ao redor. Difícil é aceitar que mudou dentro da gente. Tenho os caminhos. Tenho os dias que passam de maneira mais leve. Quase não choro mais. De vez em quando, acontece. Em algum filme. Ou num trecho de um conto. Ou nesse momento com essa música de fundo, com essas palavras que não querem sair. Que não demonstram o que eu queria demonstrar. Deus, me ajude! Sinto que estou sendo levada para algum momento da minha vida onde eu ainda sabia o que era sentir algo por você. E já não sinto. Estou me perdendo. Mas já não era sem tempo. Ficou. Eu sei que uma parte de mim ficou pra trás. Com aquele sentimento que eu nunca soube definir direito o que era. Mas era teu. Sente-se. Tente dividir a sua cama com alguém. Fique em silêncio por um ou dois minutos. Tente encontrar um assunto. Silencie uma outra vez. Talvez você me encontre. Talvez eu te encontre. No meio de um filme que me fez te conhecer. No meio de um livro que comecei a ler só pra me sentir mais dentro do seu mundo. No meio de uma rua na sua cidade. Ou na minha. Talvez a gente ainda se encontre. Daqui alguns meses. Ou anos. Tente me encontrar. Tente se encontrar. Aqui. No meio de todas essas palavras. Mesmo que você ache que nada tenha a ver com você. Mesmo que você não leia. Tente. Estou tentando. É uma última tentativa. É a última vez que escrevo. Não te prometo, mas é. Eu sinto que é. Sinta isso junto comigo. Sinta qualquer coisa que seja pela última vez comigo. Talvez a gente se encontre mais tarde, mas poderá não passar de duas pessoas tentando se lembrar de onde é que se conhecem. Não vou lembrar. Você não vai lembrar. Esquece. Perdi o jeito. Nunca mais escrevi. Nunca mais senti. Você não vai se encontrar aqui. Pode ir. Você nunca mais se lembrou. E eu me despeço do que nunca foi meu, mas teu. E já não dói.  Ao mesmo tempo em que tento inutilmente te explicar que. 


Por Camila Aguilera

segunda-feira, 1 de julho de 2013

JULHO

Deus, tenha misericórdia de todos esses corações que se apaixonam todos os dias, em todos os cantos. São essas paixões nos fazem sentir vivos. E de repente, ao entender o “não”, nos colocam de cama. Quase que prostrados. Optando pela loucura ao invés da razão. Pelo estado de quase retardamento. Nos esquecemos sempre das vezes que quebramos a cara só por tentar de novo. E juramos - mesmo sabendo ser mentira - que essa será a última vez. Pela eterna busca do último romance que Amarante um dia cantou. Pelas vezes que assistimos "500 days of Summer" e nos enxergamos tão parecidos com o Tom. Por essas pessoas que se apaixonam, se decepcionam e não desistem, Deus, tenha misericórdia. 

Por Camila Aguilera 

quinta-feira, 6 de junho de 2013

DIA 06

Uma personagem que nunca existiu. Nunca escrita. Uma personagem. Simples. Não sei de onde veio e nem para onde está indo. Não usa sapatos. Nem meias. Não anda descalço. Suas canelas não lembram canelas. Não usa calças. Nem saia. Tão pouco expõe seu sexo para quem quiser ver. Sem pelos. Sem cabelos. Ausente de células. Não há sangue correndo por suas veias. Não há mãos que possam tocar. Nenhum mínimo de visão. E o céu deve estar tão lindo lá fora. Puro silêncio. Sem ouvidos. Lágrimas inexistentes. Sem possibilidade de respiração. Não há contentamento algum. Nenhum batimento que demonstre vida. Nenhuma história ou estória. O relógio não lhe assusta. Nem qualquer ruído durante as noites que passa em claro. Canções que não pode ouvir. Uma estante com livros que jamais conseguirá ler. Eu quis inventar uma personagem e representar nela qualquer coisa que fosse. Eu precisava tanto escrever. Eu preciso tanto desabafar sobre essa vida que agora me resta. Sem textos ou sentimentos. Nada de simples. A complexidade do nada é que me abala. Não sei de onde veio ou para que lado deveria ir. Eu ou minha personagem? Ora, se somos a mesma pessoa. A falta de inspiração traz a morte de uma personagem que nunca viveu. Enquanto eu finjo que vivo só por mais um dia. Ou por um breve momento de escrita que seja.  

Por Camila Aguilera

segunda-feira, 13 de maio de 2013

DIA 13



Ouvindo uma canção qualquer enquanto meus pés acompanham as batidas no chão e o som do teclado cospe na tela algumas palavras sem sentido que eu escrevo e leio enquanto nada mais me vem à mente e paro então na tentativa de matar mais um mísero pernilongo que voa após ter provado do meu sangue esse que é parte do que me mantém viva enquanto meus sonhos escapam e as ilusões se auto destroem uma a uma e é assim que a vida segue sem termos a certeza se o que nos mantém de pé são coisas prováveis como o ar que respiramos ou algo que dispara o coração e a gente nem sequer toca. 

Por Camila Aguilera 

sábado, 27 de abril de 2013

DIA 27


Você vira uma esquina. Você entra na sua loja preferida. Você escolhe um bom disco. Rock. Samba. Blues. Bossa Nova. Um bom disco pra ouvir junto. Pronto. Um bom disco pra ouvir junto e você está sozinho, mas o que importa? Você volta pra casa. Você vai pro trabalho. Você toma sua água. De coco. Com gás. Sem gás. Você caminha devagar. Você dirige. Você pega o metrô. Você aguarda impaciente o ônibus. Você está leve. Você está mal. Você fuma. Você bebe. Você ri com os amigos. Você se isola. Você chora porque um relacionamento não deu certo. Você se reinventa. Você recomeça. Você segue em frente. Você volta um pouco o caminho. Você entra em conflitos com as pessoas. Você entra em conflito com você mesmo. Você se pergunta o motivo pro mundo estar todo errado. Você não faz nada pra mudar isso. Você resolve fazer e vive melhor. Você pensa em ter filhos. Um. Quatro. Você pensa em adotá-los. Você pensa em se formar, comprar uma casa, um carro e um cachorro. Você está bem assim. Você está de bem com a humanidade hipócrita com que convive. Você tem seus preconceitos. Você vive de conceitos impostos por uma sociedade antiga. Você simplesmente defende que cada pessoa faz o que a deixa feliz e que ninguém pode julgá-la. Você compra uma bala. Menta. Cereja. Sete belo. Você vai rápido demais. Você não olha pro lado. Tão pouco para o próximo. Você se senta e conversa com um mendigo. Você continua. Você reza. Você ora. O seu Deus é diferente dos outros? Você vai pra uma festa. Você odeia carnaval. Você quer um pouco mais de calma. Você ama seus amigos. Você chega em um ponto da vida em que se pergunta por onde eles andam. Você para pra olhar o céu. Você se emociona com as cores. Com os versos daquela canção. Você não se lembra da última vez que algo te tocou. Você se deita no chão com seu cachorro, ele lambe o seu rosto, você sorri por pensar que não existe nada melhor do que isso. Ou do que aquilo. Você se olha no espelho e já não se reconhece. Você quer permanecer pra sempre jovem. Você quer voltar pra sua infância. Você sabe que tem responsabilidades e para de desejar o que não é possível. Você sente falta dos seus avós, dos seus irmãos, dos seus pais. Você nunca teve nenhum deles. Você gosta de vídeo game. Você sente falta do seu Nintendo. Você é forte. Você se sente fraco logo em seguida. Você não tem dinheiro. Você tem. Você não é melhor do que ninguém. Você não é pior do que ninguém. Você busca equilíbrio. Você busca paz. Você não liga pros detalhes. Você lê um livro por semana. Você odeia jornais. Você prefere os vilões dos filmes. Você ama sorvete. Morango. Creme. Chocolate. Napolitano. Você fuma maços e mais maços de um cigarro vagabundo. Você se orgulha de ser o “careta”. Você quer que sintam a sua falta. Você some. Você reaparece com chocolates. Cervejas. Um bom sorriso e um abraço. Você sente medo do temporal. Do escuro. Das pessoas. Você viaja. Você se apaixona uma, duas, dez vezes. Você se apaixona todos os dias pela mesma pessoa. Você olha pro relógio. Você não pode fazer com que o tempo passe só um pouco mais devagar. Você tira os sapatos. Você sente o chão frio sob os pés. Você calça um chinelo qualquer. Você olha pro céu. Você se sente vivo. Você sente amor por todas as coisas. Você sente amor por todas as pequenas coisas. Você se sente. Apenas isso e só.

Por Camila Aguilera 

(Foto - Henrique Cruz)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

DEZESSEIS DE ABRIL DE DOIS MIL E TREZE


Vinte e quatro anos. Alguns dizem que eu mal comecei a viver. Eu apenas sinto – por mais estranho que pareça – uma calma em dizer que vivi esses anos todos de maneira equilibrada. Mesmo que o meu equilíbrio possa não ser visto como o que seria ideal. Farei terapia. Os anos estão passando e eu não sei mais quantas vezes me indicaram para que eu possa me sentir melhor. Talvez, seja realmente importante. O que eles não sabem é que talvez seja para eles também. Não direi. Poderia desestruturá-los. E durante esse tempo, aprendi que preciso de pessoas felizes – ou ao menos que fingem estar felizes – pra que a vida caminhe de maneira agradável. Dezesseis de abril de dois mil e treze. Dessa vez, eu só parei de pensar e esperei que chegasse. Não escrevi sobre os dias bons que tive até certa quinta-feira e muito menos sobre o que alguns chamam de “inferno astral”. As pessoas não querem saber sobre essas coisas que os astrólogos dizem e muito menos sobre seus dias felizes. Os tristes, talvez. Quem vem até esse blog, deve vir por mera curiosidade ou por buscar refugio em algum texto de quem ousa tanto sentir que acaba por lhes passar a mão sobre a cabeça enquanto diz que toda essa fossa – que parece interminável - um dia acaba por passar. Passa. Eu posso lhes garantir que passa. Ao contrario do ano passado quando escrevi um texto vinte e três dias antes do meu aniversário e esperava de maneira ansiosa e quase doentia por dias melhores, passo por uma das melhores fases dos últimos anos. Sem nenhuma paixão, é claro. Se é que lhes interessa saber. Não digo que estou feliz porque não estou apaixonada, mas também não posso negar que é bom ter a tranquilidade de acordar cedo e pensar que talvez aquele seja o dia de se apaixonar por uma nova pessoa. Ou por uma nova cor que surge no céu no final da tarde. Um dia, li algo que era mais ou menos assim “quando você não tem o amor, você ainda tem os caminhos”. Algo é certo, eu tenho encontrado inúmeros caminhos. Longos, curtos, atalhados. Desvendo-os. Sigo em frente. Apenas não volto. Vinte e quatro anos. Augustana continua tocando no meu som em noites como essa de segunda-feira que trazem saudade e vontade de tomar uma cerveja. Vinte e quatro anos. Sentindo o que o destino me traz. O que eu busco por força própria. No fim de tudo, peço apenas que não me reste nada mais do que a vontade de continuar vivendo, mesmo que pareça loucura. Vinte e quatro anos. Envelhecer não dói. 

Por Camila Aguilera

terça-feira, 26 de março de 2013

DIA 26


Ciclo seco 
Fase seca
Tempo seco
E chove 
Chove 
E continua
Tudo frio
Indiferente
Vinho forte com pouco açúcar
Tempestade sem chuva
Esquece lá fora
Pensamento ríspido
Mundo rude
Vida áspera
Áspera
Tempo seco
Fase seca
Ciclo seco 
Seco. 

Por Camila Aguilera

domingo, 17 de março de 2013

MARÇO DE 2013


Respeitável público, estou aqui para me apresentar à vocês. 
Cara pintada, sorriso na cara. 
Puro disfarce. 
Eterna falsidade que lhes convém. 
O mundo me ignorou. 
A vida me esmagou. 
E eu aqui, palhaço. 
E vocês aí, achando que será engraçado. 
Até quando? 
Esperem pra ver. 
Esperem por sentir o mundo sendo um verdadeiro moinho como Cartola já cantou. 
Como já me foi provado. 
Respeitável público, respeitem a minha dor. 
Esqueçam os sonhos e os risos. 
O espetáculo da tristeza vai começar! 

CAMILA AGUILERA

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

FEVEREIRO DE DOIS MIL E TREZE


Depois de achar que pode estapear 
a cara do mundo com as próprias mãos,
levou socos tão violentos que caiu em si.
Sem mais ilusões, sem mais derrotas. 
Viverás de que?
Escreverás sobre o que?

Estabeleceu-se como o teu próprio moinho.
Mastigou a si mesma. 
E agora não há nada que se gere de ti.

Por Camila Aguilera

domingo, 27 de janeiro de 2013

RUA DAS ANDRADAS, 1925


A gente não vai voltar pra casa. Desculpem-me por fazer vocês sofrerem, mas eu não tive culpa, pai. Eu só queria me divertir. Eu só queria beber um tanto e ser feliz, mãe. Eu queria voltar pra casa de manhã. Eu juro que queria. Se ainda há algum resto de vida, pode apostar que eu ainda quero. Eu não queria ver os meus amigos tristes por sentirem a minha falta. Os meus amigos certamente também querem voltar pra casa e eu espero de verdade que eles consigam. Abrace eles por mim. A gente não vai voltar pra casa, pai. Não sou apenas eu, tem um punhado de gente aqui. Eu acabei de tropeçar em um corpo. Entenda que eu fiz o possível, mas não deu. Eu imagino que doa. Só que o tumulto é grande, as chamas consomem e as lágrimas não estão dando conta. Assim como os extintores. Me perdoa, mãe. Eu queria te dar um beijo agora e dizer que foi apenas um susto. Eu juro que aceitaria ser xingado por inúmeros dias seguidos. Eu aceitaria qualquer coisa só pra poder voltar pra casa e olhar vocês de novo. As chamas, pai. Cuidado com elas. Eu tentei me cuidar. Eu vi centenas de pessoas na mesma vã tentativa. Não foi dessa vez que eu consegui ser gente grande e resolver o problema. Não vai ser dessa vez que você vai poder me dizer que tudo vai ficar bem. Você tem que ser forte, papai. Eu estou me sentindo como uma criança nesse momento e eu não consigo enxergar você chegando como um super-herói, arrombando a porta e salvando todo mundo. Eu não consigo enxergar muita coisa. Eu sinto que estou enfraquecendo e não vou conseguir ver o céu lá fora. Esse céu que deve estar sem estrelas por tanta fumaça. Um céu em chamas pra me receber. Eu vou para um lugar bom, não vou? Pai, cuida da mamãe. É sério. Eu amo vocês. Eu vou olhar por vocês de algum lugar seguro. Esse lugar não queima, esse lugar não me enfraquece, esse lugar não me mata. Eu queria voltar pra casa como todas as vezes em que eu discuto, bato a porta, vou pra rua e volto. Só que dessa vez não vai dar. Desculpem-me. A gente não vai voltar pra casa. Eu não vou. 

Por Camila Aguilera

sábado, 26 de janeiro de 2013

OS HOMENS TAMBÉM AMAM III


ÀS VEZES, POR CINQUENTA ANOS


Eu poderia começar dizendo que nunca fui muito bom nisso, mas você sabe. Essa coisa de falar ou escrever bonito não é algo que eu saiba fazer bem. Os meus dons são outros. Eu conto piadas. Eu toco acordeão. Sim, eu prefiro o termo “sanfona”, mas deixarei que a nossa neta use os termos e escreva como quiser. Só espero que ela não romantize demais e transforme a nossa história em um conto de fadas. A gente sabe muito bem que não tem nada parecido com isso na vida real. Eu nunca fui um príncipe num cavalo branco, embora quando jovem fosse bem bonito. Eu estou aqui fora com o jornal em mãos, relendo pela segunda vez uma mesma noticia. O nosso cachorro está me olhando, enquanto nossa outra neta assiste algum desenho animado. Eu aproveito esses momentos de quase tranquilidade porque logo ela pode querer que eu a pegue no colo e saia correndo uma outra vez. Eu sei que acostumei ela mal, mas fazer o que? Já sinto o cheiro da sua comida e logo mais posso ver nossa filha mais velha gritando alguma coisa que eu nunca dou muita atenção. Talvez eu faça uma piada. É, esse é o meu jeito de viver. Vocês ficam bravas por qualquer coisa e eu tento reverter fazendo uma graça. Por vezes eu dou risada sozinho, mas que mal tem? Eu gostei e isso é o que importa. Você passou por mim agora e eu parei pra te olhar. Estamos mesmos velhos, hein? Pouco lembramos aqueles dois jovens com sonhos de anos atrás. Talvez eu não te diga nada de muito bonito hoje. Eu quase nunca digo. Pra falar a verdade, eu não me lembro da ultima vez que disse. Só que eu espero de verdade que você saiba que eu continuo aqui porque amo você e nossos filhos e nossas netas. Ninguém bota muita fé em mim. Ninguém nunca botou, mas fui eu quem te conquistei há cinquenta anos atrás. E durante todo esse tempo, eu errei e me redimi inúmeras vezes. Talvez tenha errado mais do que me redimido. Só que uma coisa é certa nessa vida, não importa se a gente está numa fase saudável ou triste, pobre ou mais ou menos, eu continuo aqui porque te amo. Porque houve uma moça de olhos verdes que me conquistou há muito tempo atrás. E houve um rapaz que ninguém nunca julgou bom o bastante pra você e foi aceito apesar do seu jeito meio torto de ser. Hoje, eu só posso te agradecer por ter ficado do meu lado durante todos esses anos. Eu sei que não foi fácil. E por isso aceito tão bem todas as vezes que me xinga ou diz que eu não valho muita coisa. Só que nós dois sabemos que valemos muito mais enquanto estivermos juntos. Um ao lado do outro. Levando pedrada da vida e revidando. Acho que olhando devagar pra gente qualquer pessoa pode dizer que deu tudo certo. Ou está quase dando. E eu espero viver bastante ainda pra poder continuar do seu lado na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Bom, acho que é mais ou menos por aí. Só que você não sabe que eu só aprendi o que eram esses votos depois de algum tempo. Há tantos anos atrás eu não entendia. E graças a Deus, eu aprendi com você. Talvez daqui a pouco eu resolva tocar uma música pra você. E talvez você reclame do barulho. O cachorro comece a latir. O café esfrie em cima da mesa. E nossa neta aprenda a andar de bicicleta enquanto a outra se forma professora. Talvez aconteça um mundo de coisas ou nada. A única certeza é que eu estarei aqui por você quando amanhecer mesmo que pareça que não. Só te peço pra que feche os olhos comigo por alguns segundos e deseje que seja realmente até que a morte nos separe. 

"Vai saber, se olhando bem no rosto do impossível
O véu, o vento o alvo invisível
Se desvenda o que nos une ainda assim..."
Jeneci, Marcelo

Por Camila Aguilera   

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

NOTA SOBRE O QUE PASSOU

Fui
Outra pessoa
Escrevi
Outro texto
Não isso que vos apresento
Por agora
Era outro
Momento
Sentimento
Eu 
Não sou.


Por Camila Aguilera