domingo, 27 de janeiro de 2013

RUA DAS ANDRADAS, 1925


A gente não vai voltar pra casa. Desculpem-me por fazer vocês sofrerem, mas eu não tive culpa, pai. Eu só queria me divertir. Eu só queria beber um tanto e ser feliz, mãe. Eu queria voltar pra casa de manhã. Eu juro que queria. Se ainda há algum resto de vida, pode apostar que eu ainda quero. Eu não queria ver os meus amigos tristes por sentirem a minha falta. Os meus amigos certamente também querem voltar pra casa e eu espero de verdade que eles consigam. Abrace eles por mim. A gente não vai voltar pra casa, pai. Não sou apenas eu, tem um punhado de gente aqui. Eu acabei de tropeçar em um corpo. Entenda que eu fiz o possível, mas não deu. Eu imagino que doa. Só que o tumulto é grande, as chamas consomem e as lágrimas não estão dando conta. Assim como os extintores. Me perdoa, mãe. Eu queria te dar um beijo agora e dizer que foi apenas um susto. Eu juro que aceitaria ser xingado por inúmeros dias seguidos. Eu aceitaria qualquer coisa só pra poder voltar pra casa e olhar vocês de novo. As chamas, pai. Cuidado com elas. Eu tentei me cuidar. Eu vi centenas de pessoas na mesma vã tentativa. Não foi dessa vez que eu consegui ser gente grande e resolver o problema. Não vai ser dessa vez que você vai poder me dizer que tudo vai ficar bem. Você tem que ser forte, papai. Eu estou me sentindo como uma criança nesse momento e eu não consigo enxergar você chegando como um super-herói, arrombando a porta e salvando todo mundo. Eu não consigo enxergar muita coisa. Eu sinto que estou enfraquecendo e não vou conseguir ver o céu lá fora. Esse céu que deve estar sem estrelas por tanta fumaça. Um céu em chamas pra me receber. Eu vou para um lugar bom, não vou? Pai, cuida da mamãe. É sério. Eu amo vocês. Eu vou olhar por vocês de algum lugar seguro. Esse lugar não queima, esse lugar não me enfraquece, esse lugar não me mata. Eu queria voltar pra casa como todas as vezes em que eu discuto, bato a porta, vou pra rua e volto. Só que dessa vez não vai dar. Desculpem-me. A gente não vai voltar pra casa. Eu não vou. 

Por Camila Aguilera

sábado, 26 de janeiro de 2013

OS HOMENS TAMBÉM AMAM III


ÀS VEZES, POR CINQUENTA ANOS


Eu poderia começar dizendo que nunca fui muito bom nisso, mas você sabe. Essa coisa de falar ou escrever bonito não é algo que eu saiba fazer bem. Os meus dons são outros. Eu conto piadas. Eu toco acordeão. Sim, eu prefiro o termo “sanfona”, mas deixarei que a nossa neta use os termos e escreva como quiser. Só espero que ela não romantize demais e transforme a nossa história em um conto de fadas. A gente sabe muito bem que não tem nada parecido com isso na vida real. Eu nunca fui um príncipe num cavalo branco, embora quando jovem fosse bem bonito. Eu estou aqui fora com o jornal em mãos, relendo pela segunda vez uma mesma noticia. O nosso cachorro está me olhando, enquanto nossa outra neta assiste algum desenho animado. Eu aproveito esses momentos de quase tranquilidade porque logo ela pode querer que eu a pegue no colo e saia correndo uma outra vez. Eu sei que acostumei ela mal, mas fazer o que? Já sinto o cheiro da sua comida e logo mais posso ver nossa filha mais velha gritando alguma coisa que eu nunca dou muita atenção. Talvez eu faça uma piada. É, esse é o meu jeito de viver. Vocês ficam bravas por qualquer coisa e eu tento reverter fazendo uma graça. Por vezes eu dou risada sozinho, mas que mal tem? Eu gostei e isso é o que importa. Você passou por mim agora e eu parei pra te olhar. Estamos mesmos velhos, hein? Pouco lembramos aqueles dois jovens com sonhos de anos atrás. Talvez eu não te diga nada de muito bonito hoje. Eu quase nunca digo. Pra falar a verdade, eu não me lembro da ultima vez que disse. Só que eu espero de verdade que você saiba que eu continuo aqui porque amo você e nossos filhos e nossas netas. Ninguém bota muita fé em mim. Ninguém nunca botou, mas fui eu quem te conquistei há cinquenta anos atrás. E durante todo esse tempo, eu errei e me redimi inúmeras vezes. Talvez tenha errado mais do que me redimido. Só que uma coisa é certa nessa vida, não importa se a gente está numa fase saudável ou triste, pobre ou mais ou menos, eu continuo aqui porque te amo. Porque houve uma moça de olhos verdes que me conquistou há muito tempo atrás. E houve um rapaz que ninguém nunca julgou bom o bastante pra você e foi aceito apesar do seu jeito meio torto de ser. Hoje, eu só posso te agradecer por ter ficado do meu lado durante todos esses anos. Eu sei que não foi fácil. E por isso aceito tão bem todas as vezes que me xinga ou diz que eu não valho muita coisa. Só que nós dois sabemos que valemos muito mais enquanto estivermos juntos. Um ao lado do outro. Levando pedrada da vida e revidando. Acho que olhando devagar pra gente qualquer pessoa pode dizer que deu tudo certo. Ou está quase dando. E eu espero viver bastante ainda pra poder continuar do seu lado na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Bom, acho que é mais ou menos por aí. Só que você não sabe que eu só aprendi o que eram esses votos depois de algum tempo. Há tantos anos atrás eu não entendia. E graças a Deus, eu aprendi com você. Talvez daqui a pouco eu resolva tocar uma música pra você. E talvez você reclame do barulho. O cachorro comece a latir. O café esfrie em cima da mesa. E nossa neta aprenda a andar de bicicleta enquanto a outra se forma professora. Talvez aconteça um mundo de coisas ou nada. A única certeza é que eu estarei aqui por você quando amanhecer mesmo que pareça que não. Só te peço pra que feche os olhos comigo por alguns segundos e deseje que seja realmente até que a morte nos separe. 

"Vai saber, se olhando bem no rosto do impossível
O véu, o vento o alvo invisível
Se desvenda o que nos une ainda assim..."
Jeneci, Marcelo

Por Camila Aguilera   

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

NOTA SOBRE O QUE PASSOU

Fui
Outra pessoa
Escrevi
Outro texto
Não isso que vos apresento
Por agora
Era outro
Momento
Sentimento
Eu 
Não sou.


Por Camila Aguilera