sábado, 26 de janeiro de 2013

OS HOMENS TAMBÉM AMAM III


ÀS VEZES, POR CINQUENTA ANOS


Eu poderia começar dizendo que nunca fui muito bom nisso, mas você sabe. Essa coisa de falar ou escrever bonito não é algo que eu saiba fazer bem. Os meus dons são outros. Eu conto piadas. Eu toco acordeão. Sim, eu prefiro o termo “sanfona”, mas deixarei que a nossa neta use os termos e escreva como quiser. Só espero que ela não romantize demais e transforme a nossa história em um conto de fadas. A gente sabe muito bem que não tem nada parecido com isso na vida real. Eu nunca fui um príncipe num cavalo branco, embora quando jovem fosse bem bonito. Eu estou aqui fora com o jornal em mãos, relendo pela segunda vez uma mesma noticia. O nosso cachorro está me olhando, enquanto nossa outra neta assiste algum desenho animado. Eu aproveito esses momentos de quase tranquilidade porque logo ela pode querer que eu a pegue no colo e saia correndo uma outra vez. Eu sei que acostumei ela mal, mas fazer o que? Já sinto o cheiro da sua comida e logo mais posso ver nossa filha mais velha gritando alguma coisa que eu nunca dou muita atenção. Talvez eu faça uma piada. É, esse é o meu jeito de viver. Vocês ficam bravas por qualquer coisa e eu tento reverter fazendo uma graça. Por vezes eu dou risada sozinho, mas que mal tem? Eu gostei e isso é o que importa. Você passou por mim agora e eu parei pra te olhar. Estamos mesmos velhos, hein? Pouco lembramos aqueles dois jovens com sonhos de anos atrás. Talvez eu não te diga nada de muito bonito hoje. Eu quase nunca digo. Pra falar a verdade, eu não me lembro da ultima vez que disse. Só que eu espero de verdade que você saiba que eu continuo aqui porque amo você e nossos filhos e nossas netas. Ninguém bota muita fé em mim. Ninguém nunca botou, mas fui eu quem te conquistei há cinquenta anos atrás. E durante todo esse tempo, eu errei e me redimi inúmeras vezes. Talvez tenha errado mais do que me redimido. Só que uma coisa é certa nessa vida, não importa se a gente está numa fase saudável ou triste, pobre ou mais ou menos, eu continuo aqui porque te amo. Porque houve uma moça de olhos verdes que me conquistou há muito tempo atrás. E houve um rapaz que ninguém nunca julgou bom o bastante pra você e foi aceito apesar do seu jeito meio torto de ser. Hoje, eu só posso te agradecer por ter ficado do meu lado durante todos esses anos. Eu sei que não foi fácil. E por isso aceito tão bem todas as vezes que me xinga ou diz que eu não valho muita coisa. Só que nós dois sabemos que valemos muito mais enquanto estivermos juntos. Um ao lado do outro. Levando pedrada da vida e revidando. Acho que olhando devagar pra gente qualquer pessoa pode dizer que deu tudo certo. Ou está quase dando. E eu espero viver bastante ainda pra poder continuar do seu lado na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Bom, acho que é mais ou menos por aí. Só que você não sabe que eu só aprendi o que eram esses votos depois de algum tempo. Há tantos anos atrás eu não entendia. E graças a Deus, eu aprendi com você. Talvez daqui a pouco eu resolva tocar uma música pra você. E talvez você reclame do barulho. O cachorro comece a latir. O café esfrie em cima da mesa. E nossa neta aprenda a andar de bicicleta enquanto a outra se forma professora. Talvez aconteça um mundo de coisas ou nada. A única certeza é que eu estarei aqui por você quando amanhecer mesmo que pareça que não. Só te peço pra que feche os olhos comigo por alguns segundos e deseje que seja realmente até que a morte nos separe. 

"Vai saber, se olhando bem no rosto do impossível
O véu, o vento o alvo invisível
Se desvenda o que nos une ainda assim..."
Jeneci, Marcelo

Por Camila Aguilera   

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