sábado, 27 de abril de 2013

DIA 27


Você vira uma esquina. Você entra na sua loja preferida. Você escolhe um bom disco. Rock. Samba. Blues. Bossa Nova. Um bom disco pra ouvir junto. Pronto. Um bom disco pra ouvir junto e você está sozinho, mas o que importa? Você volta pra casa. Você vai pro trabalho. Você toma sua água. De coco. Com gás. Sem gás. Você caminha devagar. Você dirige. Você pega o metrô. Você aguarda impaciente o ônibus. Você está leve. Você está mal. Você fuma. Você bebe. Você ri com os amigos. Você se isola. Você chora porque um relacionamento não deu certo. Você se reinventa. Você recomeça. Você segue em frente. Você volta um pouco o caminho. Você entra em conflitos com as pessoas. Você entra em conflito com você mesmo. Você se pergunta o motivo pro mundo estar todo errado. Você não faz nada pra mudar isso. Você resolve fazer e vive melhor. Você pensa em ter filhos. Um. Quatro. Você pensa em adotá-los. Você pensa em se formar, comprar uma casa, um carro e um cachorro. Você está bem assim. Você está de bem com a humanidade hipócrita com que convive. Você tem seus preconceitos. Você vive de conceitos impostos por uma sociedade antiga. Você simplesmente defende que cada pessoa faz o que a deixa feliz e que ninguém pode julgá-la. Você compra uma bala. Menta. Cereja. Sete belo. Você vai rápido demais. Você não olha pro lado. Tão pouco para o próximo. Você se senta e conversa com um mendigo. Você continua. Você reza. Você ora. O seu Deus é diferente dos outros? Você vai pra uma festa. Você odeia carnaval. Você quer um pouco mais de calma. Você ama seus amigos. Você chega em um ponto da vida em que se pergunta por onde eles andam. Você para pra olhar o céu. Você se emociona com as cores. Com os versos daquela canção. Você não se lembra da última vez que algo te tocou. Você se deita no chão com seu cachorro, ele lambe o seu rosto, você sorri por pensar que não existe nada melhor do que isso. Ou do que aquilo. Você se olha no espelho e já não se reconhece. Você quer permanecer pra sempre jovem. Você quer voltar pra sua infância. Você sabe que tem responsabilidades e para de desejar o que não é possível. Você sente falta dos seus avós, dos seus irmãos, dos seus pais. Você nunca teve nenhum deles. Você gosta de vídeo game. Você sente falta do seu Nintendo. Você é forte. Você se sente fraco logo em seguida. Você não tem dinheiro. Você tem. Você não é melhor do que ninguém. Você não é pior do que ninguém. Você busca equilíbrio. Você busca paz. Você não liga pros detalhes. Você lê um livro por semana. Você odeia jornais. Você prefere os vilões dos filmes. Você ama sorvete. Morango. Creme. Chocolate. Napolitano. Você fuma maços e mais maços de um cigarro vagabundo. Você se orgulha de ser o “careta”. Você quer que sintam a sua falta. Você some. Você reaparece com chocolates. Cervejas. Um bom sorriso e um abraço. Você sente medo do temporal. Do escuro. Das pessoas. Você viaja. Você se apaixona uma, duas, dez vezes. Você se apaixona todos os dias pela mesma pessoa. Você olha pro relógio. Você não pode fazer com que o tempo passe só um pouco mais devagar. Você tira os sapatos. Você sente o chão frio sob os pés. Você calça um chinelo qualquer. Você olha pro céu. Você se sente vivo. Você sente amor por todas as coisas. Você sente amor por todas as pequenas coisas. Você se sente. Apenas isso e só.

Por Camila Aguilera 

(Foto - Henrique Cruz)

segunda-feira, 15 de abril de 2013

DEZESSEIS DE ABRIL DE DOIS MIL E TREZE


Vinte e quatro anos. Alguns dizem que eu mal comecei a viver. Eu apenas sinto – por mais estranho que pareça – uma calma em dizer que vivi esses anos todos de maneira equilibrada. Mesmo que o meu equilíbrio possa não ser visto como o que seria ideal. Farei terapia. Os anos estão passando e eu não sei mais quantas vezes me indicaram para que eu possa me sentir melhor. Talvez, seja realmente importante. O que eles não sabem é que talvez seja para eles também. Não direi. Poderia desestruturá-los. E durante esse tempo, aprendi que preciso de pessoas felizes – ou ao menos que fingem estar felizes – pra que a vida caminhe de maneira agradável. Dezesseis de abril de dois mil e treze. Dessa vez, eu só parei de pensar e esperei que chegasse. Não escrevi sobre os dias bons que tive até certa quinta-feira e muito menos sobre o que alguns chamam de “inferno astral”. As pessoas não querem saber sobre essas coisas que os astrólogos dizem e muito menos sobre seus dias felizes. Os tristes, talvez. Quem vem até esse blog, deve vir por mera curiosidade ou por buscar refugio em algum texto de quem ousa tanto sentir que acaba por lhes passar a mão sobre a cabeça enquanto diz que toda essa fossa – que parece interminável - um dia acaba por passar. Passa. Eu posso lhes garantir que passa. Ao contrario do ano passado quando escrevi um texto vinte e três dias antes do meu aniversário e esperava de maneira ansiosa e quase doentia por dias melhores, passo por uma das melhores fases dos últimos anos. Sem nenhuma paixão, é claro. Se é que lhes interessa saber. Não digo que estou feliz porque não estou apaixonada, mas também não posso negar que é bom ter a tranquilidade de acordar cedo e pensar que talvez aquele seja o dia de se apaixonar por uma nova pessoa. Ou por uma nova cor que surge no céu no final da tarde. Um dia, li algo que era mais ou menos assim “quando você não tem o amor, você ainda tem os caminhos”. Algo é certo, eu tenho encontrado inúmeros caminhos. Longos, curtos, atalhados. Desvendo-os. Sigo em frente. Apenas não volto. Vinte e quatro anos. Augustana continua tocando no meu som em noites como essa de segunda-feira que trazem saudade e vontade de tomar uma cerveja. Vinte e quatro anos. Sentindo o que o destino me traz. O que eu busco por força própria. No fim de tudo, peço apenas que não me reste nada mais do que a vontade de continuar vivendo, mesmo que pareça loucura. Vinte e quatro anos. Envelhecer não dói. 

Por Camila Aguilera