quinta-feira, 6 de junho de 2013

DIA 06

Uma personagem que nunca existiu. Nunca escrita. Uma personagem. Simples. Não sei de onde veio e nem para onde está indo. Não usa sapatos. Nem meias. Não anda descalço. Suas canelas não lembram canelas. Não usa calças. Nem saia. Tão pouco expõe seu sexo para quem quiser ver. Sem pelos. Sem cabelos. Ausente de células. Não há sangue correndo por suas veias. Não há mãos que possam tocar. Nenhum mínimo de visão. E o céu deve estar tão lindo lá fora. Puro silêncio. Sem ouvidos. Lágrimas inexistentes. Sem possibilidade de respiração. Não há contentamento algum. Nenhum batimento que demonstre vida. Nenhuma história ou estória. O relógio não lhe assusta. Nem qualquer ruído durante as noites que passa em claro. Canções que não pode ouvir. Uma estante com livros que jamais conseguirá ler. Eu quis inventar uma personagem e representar nela qualquer coisa que fosse. Eu precisava tanto escrever. Eu preciso tanto desabafar sobre essa vida que agora me resta. Sem textos ou sentimentos. Nada de simples. A complexidade do nada é que me abala. Não sei de onde veio ou para que lado deveria ir. Eu ou minha personagem? Ora, se somos a mesma pessoa. A falta de inspiração traz a morte de uma personagem que nunca viveu. Enquanto eu finjo que vivo só por mais um dia. Ou por um breve momento de escrita que seja.  

Por Camila Aguilera

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