quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

NOTA SOBRE UMA CENA QUALQUER

Uma criança de três anos e um bêbado/andarilho/indigente – indique aqui o adjetivo que quiser -. Eles se divertem. Uma criança de três anos e um mendigo de. Alguém que começa a viver. Alguém que sobrevive todos os dias. Ele a ensina a fazer bolas de barro. Ele pede para que ela as acerte nele. Ele aprendeu a ser acertado todos os dias. Ela ainda tem muito o que aprender. Ele já não se importa. Ninguém sabe o que ele traz por dentro. Se tinha sonhos, já não se recorda. Talvez o próximo passo apenas o leve até o bar. Talvez o próximo passo seja ficar um pouco mais até que alguém a retire dali. Onde já se viu um bêbado/mendigo/inopioso – continue indicando aqui os adjetivos que quiser – querer brincar com o seu filho, não é mesmo? Ninguém sabe o que ele carrega por dentro e ele não vai explicar porque ninguém entenderia. Ou estaria disposto a saber. 

Por Camila Aguilera 

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

NOTA SOBRE O ÚLTIMO ROMANCE


Nos conhecemos. Nos beijamos. Não que nos lembrássemos com perfeição. A bebida - por vezes - causa isso. Além de que não me deixe esquecer: ela deve ser evitada o máximo possível. Em contrário a isso, desejo não esquecer você. Ao menos por enquanto. Lembre-se de quando tudo começou. Naquele segundo encontro. Num bar. Insistindo em (re)começar pela bebida. Tentando manter o foco em assuntos sérios. Só que existia vontade ali. Em mim. Em você. E logo transbordaria. E tanta gente ao redor sem entender. E tanta gente ao redor sem saber de nada. Só a gente sabia. E nem sabia tanto assim sobre o que estava por acontecer. O que estava por vir. O que eu sei - e você também sabe - é que temos teimosia de sobra pra tentar quantas vezes for necessário. E não venha me dizer que não. A gente vai chegar longe por mais que você me diga pra não pensar tanto no futuro e eu de repente esteja com os pés grudados na razão. Ou ao menos estive. Ou ao menos tentei. Não sei dizer. Não sei ser mais precisa. Sei que é bom te ter agora. Sentir saudade logo após você ter me dado um beijo e ido embora. Você volta amanhã. Ou volta na semana que vem. Ou eu te encontro. Em algum desses dias de calor. Ou de frio. O fato é que te espero. O fato é que você também me espera. Esperamos porque existe algo que nos faz querer ficar por perto. Existe algo de realmente bonito enquanto reparo nos seus passos quando acaba de chegar e caminha até mim. Eu não sei exatamente como te pedir pra que continue perdendo seu tempo comigo, mas eu acho que a gente deve continuar tentando. Eu perderia um tempo comigo. Não pode ser tão ruim assim. Eu posso te falar sobre o último disco de Caetano ou de algum desses cantores da cena independente. Você me fala das canções que mais gosta. Você me conta sobre seu passado. Sobre o que te deixa bem. E eu tento. Eu te mostro algumas fotografias e te conto o que me deixa bem. E você tenta. A gente se conhece um pouco mais. Eu te leio um poema. A gente reflete sobre uma frase ou outra. Eu te conto que gosto de café. Clichê. Gosto de Caio Fernando Abreu. Clichê. Leio Gabito Nunes. Clichê com gosto de vergonha. Não sou muito interessante, mas eu prometo não te entediar demais. Fumo. Bebo. Bebo pra me distrair. Pra esquecer. Pra fingir que estou bem. Pra não perceber o tempo passar. A gente pode entrar no seu carro e ouvir repetidas vezes a mesma música do CBJr. A gente pode dar uma volta. Enfeitar domingos. E todos os outros dias da semana. A gente divide um céu amanhecendo. A gente se pede em namoro quantas vezes for preciso. A gente faz planos pra quando casar e os dois Boxers que queremos ter. A gente pode se acostumar. Não se precipitar. A gente pode tentar uma outra vez e esquecer todas as outras que não deram certo. A gente vive um último romance – mesmo que depois dele ainda venham vários -. A gente se apaixona um pouco mais. Por mim. Por você. A gente se apaixona todos os dias. Por mim. Por você. Por nós.

Por Camila Aguilera