quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O ÚLTIMO

Palmital, 25 de dezembro de 2014

"(...) Toda perspectiva tem sua verdade, sua forma e sua beleza. E também sua mentira, sua deformidade e sua tristeza. Gosto daquelas mentiras que contamos porque gostaríamos que fosse verdade. É como viver em uma ficção, onde você escreve o enredo. Tem gente que chama de fuga da realidade. Eu chamo de realidade. A minha."

Começou no fim do dia 25 de dezembro de 2014. Ou meses antes disso. No fim – ou até mesmo no meio – isso pouco vai importar pra você ou pra qualquer pessoa que pare durante um tempo pra ler um texto seu. Digamos que, começou no fim de dezembro com o texto de um amigo e teve auge quando você terminou de assistir “Apenas o fim” pela segunda vez. Eu sei que você tinha como certo que não escreveria mais esse ano. Eu sei que eu tinha como certo que você não pode determinar certas coisas. O texto do seu amigo te causou isso. E “isso” é um sentimento. Ou vários deles. Pronto. Vou escrever mais um pouco. Sem esperar que seja o último. Sempre haverá mais. Você sabe bem disso. Crio um heterônimo seu se quiser, mas escreverei. E você leia daqui alguns meses se preferir. Ou simplesmente não leia nunca. Se permita não revisar. Não escolha melhor as palavras. Escreva. E só. Em um dia de sol, depois de tantos dias de chuva, aconteceu. Só que aconteceram outras vezes antes desse dia. Acauã sempre teve – sem querer – esse “poder” de te fazer refletir e escrever. Fosse após uma conversa tranquila na frente da sua casa, em um bar ou até mesmo em uma festa onde ninguém – ou quase ninguém – está preocupado em conversar sobre a vida ou os rumos que a mesma tomou. Quando você está na fossa, você parece sempre estar em um mundo paralelo ao de todas as outras pessoas ao seu redor. Mesmo que você sorria ou até mesmo solte uma gargalhada por algo que um amigo disse, mesmo que você beba tanto que de repente se esqueça. Quando você está na fossa, mesmo que tenha alguém compartilhando da mesma situação, você continua em um mundo paralelo, você quer se isolar, você quer ligar Adriana Calcanhoto ou Los Hermanos e sentir toda a dor sozinha. Só que depois passa e então você vai pra qualquer lugar – nesses momentos qualquer lugar realmente serve -, encontra um amigo e conversa sobre os rumos que sua vida tomou nos últimos meses sem se importar com o nó que ainda se forma por dentro. Nó esse que você engole com um copo a mais de uma bebida qualquer. Vai, pode ligar “Pois é” e ouvir até se cansar. Pode chorar uma vez mais. Pode selecionar as cenas mais tristes do filme e assisti-las até ter vontade de só dormir. Escreva novamente para quem quiser. Fale de amor. Chame-a de amor. Tudo ao seu tempo. Uma hora vai passar. Você sabe disso. Você não vai reencontrar nunca mais com a pessoa que era ao iniciar esse ano. Assim como jamais vai conseguir fazer isso com a criança ou com a adolescente que um dia foi. O tempo passa e leva com ele muita coisa da gente. Sejam bonitas ou tristes. Então apenas aceite o seu “caos”. Ele está quase no fim, você já pode sentir isso. Lide com seus problemas. Não lidar com eles ou com a causa deles sempre foi o caminho mais fácil. Só lembre-se que depois de um tempo, você se deu conta que o caminho mais fácil poderia simplesmente nunca te levar a um lugar realmente significativo. Esqueça-se de querer buscar certezas. Vivemos nessa esperança de eternidade de todas as coisas, sentimentos, felicidade. E a única certeza que nos sobra ao fim de cada dia, semana, mês ou ano é a de que morreremos. Fale sobre antes de ontem; um jantar de Natal. Sobre o ontem;  o almoço com sua família. Fale ainda sobre alguns dias que dividiu com alguém e embora tenha se passado mais de um ano de alguns deles, você ainda pode escrever como se tivesse acontecido há apenas alguns minutos atrás. Aconteceu. Talvez você nunca possa determinar para você mesma ou para quem te pergunte qual foi o momento crucial. Talvez no dia 10 de outubro de 2013 ou no dia 21 de março de 2014. Eu sei, é mais fácil falar sobre o começo. O fim ainda paira por aqui. Paira em algumas conversas que você tenta de forma exaustiva impor que ele realmente aconteça. Dentro de você. Aconteceu. Por algum motivo, as mudanças começaram a surgir em um determinado ponto. Não exatamente as mudanças, mas a necessidade de ter algo novo em mãos. Surgiu anos atrás numa conversa logo após ter voltado de Minas Gerais. Ou quando pisei na faculdade pela primeira vez e dia após dia dentro daquele lugar eu construí algo para que alguém pudesse habitar durante uma vida toda ou apenas um período de tempo. Aconteceu. Durante aquele primeiro beijo ou em alguma das vezes que vocês se despediram na rodoviária e você quis voltar. Dentro da sua cabeça alguma coisa se encaixou com os livros que já leu, personagens que inventou. Até chegar a esse dia, a esse texto, a essa vontade de mudar. Mudar a maneira de enxergar a vida. Mudar a maneira de se comportar diante de algumas situações. Mudar o inicio ou o fim desse texto. Escrever para você mesma. Querer escrever sobre outro assunto e de repente, perceber que você está no mesmo círculo vicioso de anos. E saber decidir o que te cai melhor em um determinado momento do dia. Independente se for uma roupa ou uma bebida. A casa cheia ou o silencio. Uma história ou uma estória. Ao fim, despeço-me desse ano com esse texto. Sou eu uma vez mais. São meus sentimentos uma vez mais. Amanhã ou depois, volto a escrever. Espero que algumas estórias. Criarei personagens. Criarei romances. Serão bonitos. Felizes. Ou infelizes. Serão, por vezes, quase tocáveis. O importante será esgotar. Findar. Ou simplesmente, mudar. Mudar o tom. O meu tom. Mudar a inspiração. Esquecer o sorriso. Ou então lembra-lo sem poder escrever mais nada. E então lembrar que escrevo porque ainda acredito existem pessoas que sentem como eu. Sejam elas inventadas em minha cabeça ou não. E terminar esse texto dias depois e começar a cantar qualquer música que me traga algo novo. Ao final, coloco essa foto que tirei no último domingo do ano. Você - eu, tanto faz - estava em paz e feliz. E o céu estava lindo. Ele sempre está.  Independente da sua felicidade ou tristeza. Independente se o ano está começando ou terminando.

“Que venham todos os fins porque eu sei recomeçar."

Palmital, 31 de dezembro de 2014 

Por Camila Aguilera 


sábado, 20 de dezembro de 2014

CARTA PARA ALÉM DE DOIS MIL E CATORZE

Assis, 20 de dezembro de 2014

Escrevo em um sábado, véspera do início do verão. Você tem vinte e cinco anos. Venta lá fora e aqui dentro os enfeites – que sobraram – da Copa do Mundo balançam. Você escuta o movimento da rua. Escuta “De onde vem a calma” – acredito que essa será realmente a sua música preferida independente da idade que tenha -. A casa está quase vazia. E você se lembra de quantas vezes ela esteve cheia ao longo desse ano. Com seus amigos, com as cervejas, planos e risos que dividiram. Você fez suas malas para passar duas semanas na casa de seus avós. Vai ser o tempo mais longo que passa em Palmital desde que se mudou. Você espera por dias bons. A cama está arrumada. A maioria das roupas no armário. Os troféus na estante. Você voltará logo para o que em dois mil e catorze se tornou a sua casa. Você voltará logo pra dar vida aos projetos que tem em mente para o ano novo. Você sabe que volta pra uma das decisões mais importantes que tomou até hoje. Além da terapia. Você foi forte em decidir mexer nas feridas e eu quero que se lembre disso. Eu te escrevo com vinte e cinco anos para que quando você tenha quarenta ou setenta anos, não se esqueça de que nesse ano você foi forte e continuou firme apesar de tudo o que não saiu como previa. Eu te digo que ao iniciar dois mil e quinze, você não vai querer se lembrar de dois mil e catorze, mas alguns anos mais tarde esse será o ano que você começou a dar passos para o que eu espero que tenha se tornado. Mais tarde, quando você refletir sobre seus vinte e cinco anos, tenha certeza de que esse ano teve amor, teve lágrimas, teve saudade. Cabe a você lembrar os motivos desses dias – ou no caso, sentimentos -. Eu não escreverei sobre eles aqui. O que eu espero – do fundo do seu coração – é que você não desista. Assim como em nenhum momento desse ano você não desistiu. Não desistiu do seu emprego, da sua faculdade, de acreditar na melhora do seu pai. E mais importante que tudo, você não desistiu de acreditar – e buscar – insistentemente em uma melhora sua. Tenha orgulho disso. Não esqueça de continuar acreditando e escrevendo sobre o amor – independente da idade que tenha, independente dos amores que tenha vivido pra ver dar errado ou certo -. Busque sim um pouco mais de racionalidade para seguir em frente apesar de. Só não se esqueça do que realmente te move. Dos sentimentos que carrega por cada uma das pessoas que passaram pela sua vida. Dois mil e catorze está quase no fim, mas você sabe muito bem pelo que viveu até hoje, que muitas vezes o fim é a possibilidade de um novo começo. Ou de um recomeço, que seja. Ao terminar de ler isso com seus quarenta ou setenta anos, levante-se e faça uma oração, agradeça pelo fim de dois mil e catorze, agradeça pelo (re) começo que ele te proporcionou e pelo amor que sentiu por seus familiares, por seus amigos, por uma pessoa – que eu acredito que nunca se esquecerá realmente -. De resto, escreva sobre dois mil e trinta e nove ou qualquer outro ano. De resto, saia lá fora e aproveite o dia. Afinal, o ano está só terminando uma outra vez.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

MÚSICA E CHAPÉU

Palmital, 14 de dezembro de 2014

Thi, esses dias eu ouvi “Somewhere only we know”. Passava alguma propaganda. Ou algum trailer de filme. Não sei ao certo. A música estava na voz de uma mulher. Descobri depois que se tratava de uma versão cantada pela Lily Allen. Thi, lembrei de você. De vez em sempre eu lembro de você. Seja ouvindo alguma música ou andando por algum lugar novo – onde talvez eu possa esbarrar em você -. Thi, esse ano aconteceu tanta coisa e eu quis em muitos dias ligar o computador e te encontrar do outro lado da tela com alguma palavra doce que faria com que eu me sentisse abraçada. Só que os tempos mudaram. O msn nem existe mais. O Orkut também não. Eu não sei qual meio de comunicação você anda preferindo. E a gente nunca mais se falou. Nem pra falar de saudade. Nem pra dizer que sente falta. Só que sério, eu sinto sua falta, Thi. E eu vou te chamar de Thi porque sempre foi assim entre a gente. Sempre houve uma intimidade de velhos amigos. Sempre houve uma troca muito grande entre a gente. Sabe, eu acho que você foi realmente um dos melhores amigos que tive na vida. Mesmo sem nunca ter te visto. Isso pode te soar estranho, mas é sério. Esses dias eu li o texto “O chapéu e um céu de sentimentos” e há tanto da gente ali. Você se lembra desse texto? Tem quase três anos. O tempo realmente passa rápido. Parece que foi apenas há algumas semanas que você me ensinou a gostar de Zeca Baleiro e Maria Bethânia. Só que faz tempo, Thi. O tempo realmente passa rápido demais por nós. Eu nem sei quanto tempo faz que não te conto sobre meus dias. Sobre meu novo emprego. Meus medos. Ou sobre quem eu amo. Talvez você saiba de algumas coisas acompanhando meus textos. Você sabe o quanto eu sou transparente neles. No fim do ano passado, eu conheci alguém que me encantou tanto, Thi. Tanto! Acho que você gostaria e apoiaria. Talvez, você me ajudasse a ter feito as coisas darem mais certo entre a gente.   Só que não dependia só de mim. É o que a psicóloga diz. Comecei a terapia, Thi. Em meio a uma crise, comecei a procurar algo que se aproximasse o máximo possível de algum tipo de “cura”. Já tem alguns meses. E obviamente descobri o essencial: não existe cura. Existe tempo e é preciso ter paciência. Tem me feito bem. Tem me feito escrever menos. Tem me feito refletir pra caramba. Não é um negócio fácil, é doloroso em boa parte das vezes, mas sei lá, me sinto bem. Aos poucos e numa parte maior do tempo tenho estado mais em paz. Cabelo meio louro, olhos meios claros. Você riria e diria que eu mordi a língua. Só que ficaria feliz ao ver que sorriso eu abria cada vez que eu a encontrava. Eu tenho certeza que você sorriria junto, Thi. Acho que você sorriria também se eu te contasse que me encontrei em outra profissão – que em nada tem a ver com o curso que faço -. Como anda essa cidade com um dos invernos mais frios do Brasil? Seu time tirou a vaga do meu na Libertadores, mas tudo bem, o Tite está voltando. Vi que vai sair um disco com canções inéditas da Cássia. Quero ouvir. Vou me lembrar de você. Pode apostar. Como anda a sua vida? Espero que esteja bem. Espero que leia tudo isso. Espero que não se canse. Ou ache estranho. Não vou me estender muito, só queria que soubesse que dia desses, eu ouvi “Somewhere only we know”, não lembro se fazia sol ou chovia, sei que senti vontade de te escrever. Espero que esteja realmente bem. E se não estiver, que fique. Dias bonitos pela frente, Thi. Se possível, sorria sempre. Se possível, me escreva de volta e me conte dos seus dias, das suas andanças ou só o que achou sobre a versão com a Lily Allen. Eu vou gostar. Eu vou realmente gostar se um dia você voltar.

Com amor,

Camila Aguilera 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Dia 08

Segunda-feira, 08 de dezembro de 2014. O ano logo acaba. Esse ano. Esse caos. Esse vício de escrever somente se for sobre. Leia ao som do último disco do Charlie Brown Jr. Ou de algum outro disco deles. Só que a gente sabe que só fará sentido se ao ler esse texto a gente ouvir aquela nossa música. Ouvindo Charlie Brown eu vou lembrar da minha adolescência. Você vai lembrar da sua infância. Ou somente de alguns meses do ano passado. É, eu vou lembrar. Hoje. E eu podia te falar sobre os últimos dias, sobre o domingo com meus amigos daqui ou sobre hoje a tarde quando acordei em meio ao som de um trovão. Sabe, eu continuo não gostando deles. Da chuva, sim. Do céu em seus tons de cinza. Eu tirei uma foto pra você ver. A gente continua dividindo o mesmo céu. Só que esse ano alguns quilômetros nos separam. Você podia responder isso dizendo que ano passado nessa data nós também não estávamos dividindo o céu. Só que a gente estava junto de alguma forma. E nós sabemos bem disso. Nós sentimos bem isso. Na foto aparece também as flores da minha avó. Acho que não te falei, mas nunca fui muito de gostar delas. De uns tempos pra cá, as coisas mudaram. Talvez por eu passar menos tempo nessa casa, talvez por só ter resolvido “desperdiçar” mais tempo com a velhinha. Sei que sento e olho ela cuidar das tais plantas. É bonito, sabe? Nem tanto o jardim, mas o sorriso dela. O sorriso dela é realmente bonito. Lindo, eu diria. No mais, os dias vão bem. Você faz falta de vez em quando, mas dezembro está quase terminando. E eu vejo alguns dias, sentimentos ou lembranças ficando cada vez mais distantes. Um dia eu quero poder entender melhor sobre isso. Ou simplesmente deixar pra lá. O ano logo acaba. Esse ano. Esse caos. Tive dias bons. Juro que tive dias – ou seriam momentos? – realmente bons. Leia ao som do último disco do Charlie Brown Jr. Aquele que te dei de presente. Escute aquela música. Aquela que um trecho você colocou de dedicatória de um livro que me presenteou. Um dia, daqui algum tempo, eu volto a escrever sobre a gente. Eu conto nossa história. Eu coloco em um livro ou nesse blog. Escuta a música. Olha pro céu. Aproveite as férias e se cuide. O ano logo acaba. Infelizmente no fim desse eu já sei como a gente começa, como termina e que não estamos longe do fim. Do ano. Da primavera. Da gente.  

Por Camila Aguilera 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

SOBRE MAIO OU FINAL DE NOVEMBRO

Precisamos falar sobre o amor. Não me olhe assim com esse jeito de quem já se cansou. Às vezes, até eu acho que me cansei, mas nós precisamos falar sobre o amor antes que o mundo se acabe. Antes que a gente se esqueça. Não podemos deixar para amanhã. Pode ser tarde demais. E eu já li por aí que nada pior do que ser tarde demais, meu amor. A gente se encontra em um bar ou em dos nossos hotéis. Sim, eles são nossos. Precisamos falar sobre seus olhos. Sobre nossos dedos entrelaçados. Escrever já não basta. Escrever já não me basta. Preciso te falar sobre tudo antes que acabe. Precisamos ir ao restaurante japonês. Uma outra vez. Viajar para o sul. Ou pra alguma cidade fria do nosso estado. Preciso encontrar suas amoras. Precisamos falar sobre nós. Mesmo que ninguém entenda. Quero ser possível me encantar uma outra vez pelo jeito com que me faz sorrir. Quero ainda ser capaz de te mostrar que sou melhor ao seu lado. Precisamos perder a cabeça. Qualquer resto de razão. Dividir a mesma cama. Esqueça seus pais. Esqueço meus pais. Não deu certo com eles. E nós precisamos nos reencontrar pra falar sobre sentimentos, cervejas ou qualquer outra coisa. Eu quero rir de novo do seu lado. Assim como ainda rimos ao telefone. Nós podemos falar sobre amor com outras pessoas. Precisamos fazer com que acreditem de novo. Como eu acreditei ao te conhecer. Como eu acredito ainda agora. Esquece o amanhã ou outro dia qualquer. Precisamos falar sobre sua nova conquista enquanto eu brinco com seu gato. Precisamos falar sobre amor com nossos amigos ou conhecidos. Avisá-los que não conseguimos evita-lo. Há um tempo atrás. Há quanto tempo atrás? Preciso te falar da falta que você faz. Preciso te falar sobre o amor antes que você desacredite. Antes que o mundo desabe e eu já não possa cantar pra você dormir. 

Por Camila Aguilera 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Delírio

- Espera. Há quanto tempo estamos aqui? Eu gosto tanto de olhar pra você que até me esqueço de toda essa gente que só me faz mal. Eles mentem o tempo todo. Sobre mim. Sobre minha vida. Não me olhe assim. O que foi que te disseram? Eles estão mentindo pra você também, meu amor. Não acredite. Por favor, não acredite. Fique um pouco mais. Eu não vou perder o controle. Eu te prometo que não vou perder o controle. Como estão nossos meninos? Não deixe que eles fiquem o dia todo na casa do vizinho. Toda aquela gente é estranha demais. Por que eles nunca aparecem por aqui? Não olhe para essa gente. Eles vão começar a dar sinais. Não preste atenção neles. São todos loucos. Eles. Não, eu. Eu apenas quero sair daqui e voltar para vocês. Estou me definhando nesse lugar, meu amor. Esses dias, me olhei no espelho e me deparei com uma velha no meu lugar. Chorei. Chorei tanto. Quem era aquela pessoa? São os remédios que me colocam nesse estado. É, meu amor, esses remédios que me colocam em estado de loucura. Não, eu não estou louca. Essa gente é que só me faz mal. Eu quero ir embora. Por que me trouxeram para esse lugar? Por que você deixou, meu amor? Não, não se levante. Não comece a se afastar. Você sempre demora muito pra voltar. Por favor, não demore. Fique um pouco mais. Quer que eu peça um café? Meu amor, você continua tão bonito! Lembra quando te dizia que você era meu Dorian Grey? Tão bonito! Fica, querido. Não me deixa aqui com essa gente. Dizem que enlouqueci por te amar demais. Por te perder e não aceitar. Explica pra eles que eu nunca te perdi. Explica que você está aqui para me levar pra longe. Pra um lugar só nosso. Essa gente não me deixa em paz. Eu mal posso chorar. Toda essa confusão por dentro e eu só quero chorar, meu amor! E essas pessoas não deixam. Elas dizem que enlouqueci por amar demais. Elas me mantem presa. Afastada de você. Dos nossos filhos. Você tem noção do quanto isso me dói? Me leva com você! Olha, eu estou chorando, pode parecer desespero, que estou fora de mim, mas isso é normal. Chorar é normal. A vida é isso ou algum riso. Perdido em alguma parte do caminho. Me deixe chorar. Não conte para eles. Não se afaste. Me deixe chorar por toda essa gente que acha que amar é loucura. Loucos são eles que não vivem seus sentimentos. Racionais. Loucos. Qual a real diferença? Me deixe chorar por esse mundo doente. Fica um pouco mais. Meu amor, fica. Eles estão vindo. Não deixe que eles me levem. Por favor! Eu só quero ficar ao seu lado. Eu estou envelhecendo nesse lugar. Perdendo o tempo que tenho pra ficar com você. Eu quero morrer do teu lado. Me deixe chorar. Me deixe aqui então, mas volta logo. E me busca de vez. Dê um beijo em nossos pequenos. Eu te amo. Eu te amo. Eles estão vindo com mais doses de remédios. Eu vou tomar. Eu vou me cuidar. Só que você precisa voltar pra me ver. Me ver bem. Você volta? Você promete que volta. Só volta. Você nunca voltou. Não. Ele nunca voltou. E eu nem sei quem é você. E eu nem sei. Eu só sei chorar.  

Por Camila Aguilera 

Nota sobre o texto apresentado:
Após dois ou três anos com ele engavetado, resolvi que hoje seria o dia de terminá-lo. Ou no caso, apresentá-lo. Acho que nunca vou realmente sentir que esse texto que se originou de um sonho - se é que não me engano após tanto tempo - está finalmente acabado, mas aí está. Que seja isso e que tenha sido bom. 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

SOBRE AGOSTO OU COMEÇO

No começo. Bom, o começo foi o fim. Ponto final quando eu ainda esperava por virgulas. Reticencias que fossem. Travessões pra que gerassem diálogos. Ou qualquer coisa. Qualquer coisa. No começo. O começo foi o fim. Teve um quarto que me acolheu. Logo o quarto que deveria ser considerado nosso. Logo o quarto que não chegou a pisar. Te encontrei em cada rua, cada canto da casa, em cada e qualquer coisa banal que eu fizesse. Fui ao supermercado e nos vi. Entrei em ônibus e independente do lugar que eles me levassem, eu esperava encontrar sua casa e você no caminho. De forma simples - e não pouco dolorosa - esse foi o começo. O começo foi o fim. Não saberia dizer quantas vezes revivi momentos. Horas após horas. Dias após dias. Sessões após sessões. E agora me pego pensando se de tanto os reviver não alterei nada. Posso ter melhorado ou piorado. Posso ter dado mais cor aos seus olhos ou mais brilho ao seu sorriso em algum momento. Sim. Devo ter feito. Durante esse tempo, pensei que escreveria aos montes. Não escrevi. Se Cazuza estava certo com relação a algum medo era o de fazer análise e perder a inspiração. A gente realmente perde. Perder fez parte de quase tudo nesses tempos. A gente perde o orgulho e chora para amigos - e desconhecidos -. Depois passa. Depois volta. A gente perde e se perde, sabe?Não sei quantos cigarros fumei nas primeiras semanas. Até que parei. Guardo um pra me lembrar que em meio a esse caos todo, ele perdeu. Não saberia dizer quantas vezes peguei o telefone pra ligar e dizer o que agora já não importa. Andei por cidades e bares, estradas e ruas, mas nunca mais nada me levou de volta até você. Ainda agora enquanto sinto algo que já não defino, paro e penso. Recordo os dias que me trazem um começo. Revivo cada cena. Sem sua presença. Vou ao supermercado e digo para mim mesma que já o fazia. Viajo, bebo, cozinho, trabalho e digo – em voz alta se for preciso – que já os fazia. E sigo. Nesse começo que qualquer dia desses será outro e não terá mais nada a ver com o nosso fim, eu quero me lembrar dos dias na infância, dos dias de sol ou desse meio de agosto com gosto de paz. Aquela paz que a gente busca a vida inteira e eu encontrei. Sei que não dura para sempre, mas sei que o gosto do fim também não. 

Camila Aguilera 

sábado, 24 de maio de 2014

NOTA SOBRE O DIA 24

Quando você nasceu em 24 de maio de 1993
Eu já dava meus passos por aí
Nem pude ver a primeira vez que abriu os olhos
Ou o primeiro riso que deu
Você, criança, eu só fui conhecer anos depois
Por uma foto que guardo até hoje
Quando você nasceu na minha vida
Havia sol, muita bebida e muita gente ao redor
Não fiz parte de te ensinar nada (ou quase nada)
O dia em que reparei teus olhos, me joguei boca adentro
No dia 10 de outubro de 2013, você passou a andar dentro de mim
E então fez questão de me habitar
Assim como ainda habita agora. 

Por Camila Aguilera 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

NOTA SOBRE O DIA 21

Não. Não vamos falar sobre amor. 
Não vamos falar sobre os hotéis.
Eles são nossos cheiros misturados.
E eu não quero que ninguém descubra-os. 
Não. Não vamos falar sobre nós. 
Não vamos falar sobre nossas bocas geladas.
Nada sobre o inverno ou o ar ligado no vinte. 
Não. Não vamos falar sobre o amor também causar arrepios. 
Não vamos falar sobre os seus olhos claros. 
Ou a maneira como eu sorria por eles.
Ninguém entenderia. 
Ainda mais nesse dia estranho desse abril despedaçado.
Não. Não vamos falar sobre saudade. 

Por Camila Aguilera 

terça-feira, 15 de abril de 2014

NOTA SOBRE SEUS VINTE E CINCO ANOS

15 de abril de 2014

Pra quando você completar seus quarenta ou cinquenta anos, você saiba que tentou escrever algo sobre o seu aniversário de vinte e cinco anos. O dia era chuvoso e frio. Você ouviu “Paciência” do Lenine inúmeras vezes. Estava prestes a completar um mês que havia saído de casa. Mudado de cidade. Isso te fez bem. Você morou com boas pessoas. Estava quase acabando uma promessa de ficar sem beber por um mês. Começou a terapia. Um relacionamento havia chegado ao seu fim. Não, não o amor. Você ainda existia e sentia dentro dele. De vez em quando, te inquietava. De vez em sempre, era bonito senti-lo. E então você sentia. Com quarenta ou cinquenta anos, eu espero que você consiga se lembrar do que sentiu e por quem sentiu. Foi um tempo de hotéis, sorrisos e olhos claros. Você amou muito. Sinta-se feliz por isso. E continue escrevendo. Sobre qualquer coisa. Dias bons, dias ruins. O que te sufoca. O que te liberta. Eu desejo que você ainda tenha as pessoas que ama por perto. Independente da distância, você aprendeu onde guarda-las. Faz frio e chove. O dia não está menos bonito por isso. Vinte e cinco anos. Se tem algo que eu posso dizer, é que você está melhor do que com quinze ou vinte.  Envelhecer realmente não dói. Há um acúmulo de dias, sentimentos, chegadas e partidas. A única coisa que realmente permanece é sua própria vida, o resto serão lembranças. Por mais que tenha sido ontem ou há minutos atrás. Lembranças. As guarde e siga em frente. Independente da idade, eu espero que você assopre velas ou faça uma oração desejando apenas uma coisa: ser possível lembrar sempre de quem te fez sorrir e amar com vinte e cinco, quarenta ou cinquenta anos.

Por Camila Aguilera 

quinta-feira, 20 de março de 2014

DIA 20

Se um dia me perguntassem do que sinto falta, diria que sinto saudade da escrita. Essa escrita que desenvolvia assim, mais ou menos, do nada. Se me perguntassem. Só que vocês não perguntam nada. Não me incitam. Sinto falta da escrita como sinto falta da adolescência. Infância. Sabor de sorvete de morango. Primeiro porre. Gosto de cigarro na boca. Paixões que passaram. Sinto falta da escrita como sinto de muitos momentos que vivi. Mas não quero voltar. Por que? Não me questionem assim. Quase vinte e cinco anos. Não saberia responder. Nem ontem. Nem hoje. Amanhã? Também não. Sei que sinto falta e que não voltaria. Não querer voltar é diferente. É um sentimento estranho. Há três ou quatro anos atrás, eu desejaria ter de novo certa idade. Só que o tempo é um insulto. Você sente como se nunca vivesse o suficiente. Mas vive. E de repente, quando percebe, não quer voltar. Quer continuar. Prosseguir. Ir em frente. Não se sabe se por não querer voltar ou por simplesmente concluir que isso não seria mesmo possível. Possível é ainda esse passeio pela escrita, essa escolha de palavras. Um pensamento que se torna um texto. Uma frase que se desdobra até você se perder. Existiu um começo aqui. Existirá – certamente – um final. Quando? Eu me questiono já que não o fazem, mas isso é fácil, difícil é obter resposta. Mesmo que seja sobre você. Sobre a própria vida, a gente sabe de tudo, até mesmo do que não viveu, mas jamais saberá sobre o fim. Aquele fim – que por enquanto – não cabe aqui. 

Por Camila Aguilera