sexta-feira, 15 de agosto de 2014

SOBRE AGOSTO OU COMEÇO

No começo. Bom, o começo foi o fim. Ponto final quando eu ainda esperava por virgulas. Reticencias que fossem. Travessões pra que gerassem diálogos. Ou qualquer coisa. Qualquer coisa. No começo. O começo foi o fim. Teve um quarto que me acolheu. Logo o quarto que deveria ser considerado nosso. Logo o quarto que não chegou a pisar. Te encontrei em cada rua, cada canto da casa, em cada e qualquer coisa banal que eu fizesse. Fui ao supermercado e nos vi. Entrei em ônibus e independente do lugar que eles me levassem, eu esperava encontrar sua casa e você no caminho. De forma simples - e não pouco dolorosa - esse foi o começo. O começo foi o fim. Não saberia dizer quantas vezes revivi momentos. Horas após horas. Dias após dias. Sessões após sessões. E agora me pego pensando se de tanto os reviver não alterei nada. Posso ter melhorado ou piorado. Posso ter dado mais cor aos seus olhos ou mais brilho ao seu sorriso em algum momento. Sim. Devo ter feito. Durante esse tempo, pensei que escreveria aos montes. Não escrevi. Se Cazuza estava certo com relação a algum medo era o de fazer análise e perder a inspiração. A gente realmente perde. Perder fez parte de quase tudo nesses tempos. A gente perde o orgulho e chora para amigos - e desconhecidos -. Depois passa. Depois volta. A gente perde e se perde, sabe?Não sei quantos cigarros fumei nas primeiras semanas. Até que parei. Guardo um pra me lembrar que em meio a esse caos todo, ele perdeu. Não saberia dizer quantas vezes peguei o telefone pra ligar e dizer o que agora já não importa. Andei por cidades e bares, estradas e ruas, mas nunca mais nada me levou de volta até você. Ainda agora enquanto sinto algo que já não defino, paro e penso. Recordo os dias que me trazem um começo. Revivo cada cena. Sem sua presença. Vou ao supermercado e digo para mim mesma que já o fazia. Viajo, bebo, cozinho, trabalho e digo – em voz alta se for preciso – que já os fazia. E sigo. Nesse começo que qualquer dia desses será outro e não terá mais nada a ver com o nosso fim, eu quero me lembrar dos dias na infância, dos dias de sol ou desse meio de agosto com gosto de paz. Aquela paz que a gente busca a vida inteira e eu encontrei. Sei que não dura para sempre, mas sei que o gosto do fim também não. 

Camila Aguilera 

1 comentário(s):

cronistaamadora disse...

Agosto me trouxe exatamente o fim de algo que nem chegou a acontecer - e, dessa vez, a culpa não foi minha. Ainda dói muito.
Beijão.