quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

O ÚLTIMO

Palmital, 25 de dezembro de 2014

"(...) Toda perspectiva tem sua verdade, sua forma e sua beleza. E também sua mentira, sua deformidade e sua tristeza. Gosto daquelas mentiras que contamos porque gostaríamos que fosse verdade. É como viver em uma ficção, onde você escreve o enredo. Tem gente que chama de fuga da realidade. Eu chamo de realidade. A minha."

Começou no fim do dia 25 de dezembro de 2014. Ou meses antes disso. No fim – ou até mesmo no meio – isso pouco vai importar pra você ou pra qualquer pessoa que pare durante um tempo pra ler um texto seu. Digamos que, começou no fim de dezembro com o texto de um amigo e teve auge quando você terminou de assistir “Apenas o fim” pela segunda vez. Eu sei que você tinha como certo que não escreveria mais esse ano. Eu sei que eu tinha como certo que você não pode determinar certas coisas. O texto do seu amigo te causou isso. E “isso” é um sentimento. Ou vários deles. Pronto. Vou escrever mais um pouco. Sem esperar que seja o último. Sempre haverá mais. Você sabe bem disso. Crio um heterônimo seu se quiser, mas escreverei. E você leia daqui alguns meses se preferir. Ou simplesmente não leia nunca. Se permita não revisar. Não escolha melhor as palavras. Escreva. E só. Em um dia de sol, depois de tantos dias de chuva, aconteceu. Só que aconteceram outras vezes antes desse dia. Acauã sempre teve – sem querer – esse “poder” de te fazer refletir e escrever. Fosse após uma conversa tranquila na frente da sua casa, em um bar ou até mesmo em uma festa onde ninguém – ou quase ninguém – está preocupado em conversar sobre a vida ou os rumos que a mesma tomou. Quando você está na fossa, você parece sempre estar em um mundo paralelo ao de todas as outras pessoas ao seu redor. Mesmo que você sorria ou até mesmo solte uma gargalhada por algo que um amigo disse, mesmo que você beba tanto que de repente se esqueça. Quando você está na fossa, mesmo que tenha alguém compartilhando da mesma situação, você continua em um mundo paralelo, você quer se isolar, você quer ligar Adriana Calcanhoto ou Los Hermanos e sentir toda a dor sozinha. Só que depois passa e então você vai pra qualquer lugar – nesses momentos qualquer lugar realmente serve -, encontra um amigo e conversa sobre os rumos que sua vida tomou nos últimos meses sem se importar com o nó que ainda se forma por dentro. Nó esse que você engole com um copo a mais de uma bebida qualquer. Vai, pode ligar “Pois é” e ouvir até se cansar. Pode chorar uma vez mais. Pode selecionar as cenas mais tristes do filme e assisti-las até ter vontade de só dormir. Escreva novamente para quem quiser. Fale de amor. Chame-a de amor. Tudo ao seu tempo. Uma hora vai passar. Você sabe disso. Você não vai reencontrar nunca mais com a pessoa que era ao iniciar esse ano. Assim como jamais vai conseguir fazer isso com a criança ou com a adolescente que um dia foi. O tempo passa e leva com ele muita coisa da gente. Sejam bonitas ou tristes. Então apenas aceite o seu “caos”. Ele está quase no fim, você já pode sentir isso. Lide com seus problemas. Não lidar com eles ou com a causa deles sempre foi o caminho mais fácil. Só lembre-se que depois de um tempo, você se deu conta que o caminho mais fácil poderia simplesmente nunca te levar a um lugar realmente significativo. Esqueça-se de querer buscar certezas. Vivemos nessa esperança de eternidade de todas as coisas, sentimentos, felicidade. E a única certeza que nos sobra ao fim de cada dia, semana, mês ou ano é a de que morreremos. Fale sobre antes de ontem; um jantar de Natal. Sobre o ontem;  o almoço com sua família. Fale ainda sobre alguns dias que dividiu com alguém e embora tenha se passado mais de um ano de alguns deles, você ainda pode escrever como se tivesse acontecido há apenas alguns minutos atrás. Aconteceu. Talvez você nunca possa determinar para você mesma ou para quem te pergunte qual foi o momento crucial. Talvez no dia 10 de outubro de 2013 ou no dia 21 de março de 2014. Eu sei, é mais fácil falar sobre o começo. O fim ainda paira por aqui. Paira em algumas conversas que você tenta de forma exaustiva impor que ele realmente aconteça. Dentro de você. Aconteceu. Por algum motivo, as mudanças começaram a surgir em um determinado ponto. Não exatamente as mudanças, mas a necessidade de ter algo novo em mãos. Surgiu anos atrás numa conversa logo após ter voltado de Minas Gerais. Ou quando pisei na faculdade pela primeira vez e dia após dia dentro daquele lugar eu construí algo para que alguém pudesse habitar durante uma vida toda ou apenas um período de tempo. Aconteceu. Durante aquele primeiro beijo ou em alguma das vezes que vocês se despediram na rodoviária e você quis voltar. Dentro da sua cabeça alguma coisa se encaixou com os livros que já leu, personagens que inventou. Até chegar a esse dia, a esse texto, a essa vontade de mudar. Mudar a maneira de enxergar a vida. Mudar a maneira de se comportar diante de algumas situações. Mudar o inicio ou o fim desse texto. Escrever para você mesma. Querer escrever sobre outro assunto e de repente, perceber que você está no mesmo círculo vicioso de anos. E saber decidir o que te cai melhor em um determinado momento do dia. Independente se for uma roupa ou uma bebida. A casa cheia ou o silencio. Uma história ou uma estória. Ao fim, despeço-me desse ano com esse texto. Sou eu uma vez mais. São meus sentimentos uma vez mais. Amanhã ou depois, volto a escrever. Espero que algumas estórias. Criarei personagens. Criarei romances. Serão bonitos. Felizes. Ou infelizes. Serão, por vezes, quase tocáveis. O importante será esgotar. Findar. Ou simplesmente, mudar. Mudar o tom. O meu tom. Mudar a inspiração. Esquecer o sorriso. Ou então lembra-lo sem poder escrever mais nada. E então lembrar que escrevo porque ainda acredito existem pessoas que sentem como eu. Sejam elas inventadas em minha cabeça ou não. E terminar esse texto dias depois e começar a cantar qualquer música que me traga algo novo. Ao final, coloco essa foto que tirei no último domingo do ano. Você - eu, tanto faz - estava em paz e feliz. E o céu estava lindo. Ele sempre está.  Independente da sua felicidade ou tristeza. Independente se o ano está começando ou terminando.

“Que venham todos os fins porque eu sei recomeçar."

Palmital, 31 de dezembro de 2014 

Por Camila Aguilera 


sábado, 20 de dezembro de 2014

CARTA PARA ALÉM DE DOIS MIL E CATORZE

Assis, 20 de dezembro de 2014

Escrevo em um sábado, véspera do início do verão. Você tem vinte e cinco anos. Venta lá fora e aqui dentro os enfeites – que sobraram – da Copa do Mundo balançam. Você escuta o movimento da rua. Escuta “De onde vem a calma” – acredito que essa será realmente a sua música preferida independente da idade que tenha -. A casa está quase vazia. E você se lembra de quantas vezes ela esteve cheia ao longo desse ano. Com seus amigos, com as cervejas, planos e risos que dividiram. Você fez suas malas para passar duas semanas na casa de seus avós. Vai ser o tempo mais longo que passa em Palmital desde que se mudou. Você espera por dias bons. A cama está arrumada. A maioria das roupas no armário. Os troféus na estante. Você voltará logo para o que em dois mil e catorze se tornou a sua casa. Você voltará logo pra dar vida aos projetos que tem em mente para o ano novo. Você sabe que volta pra uma das decisões mais importantes que tomou até hoje. Além da terapia. Você foi forte em decidir mexer nas feridas e eu quero que se lembre disso. Eu te escrevo com vinte e cinco anos para que quando você tenha quarenta ou setenta anos, não se esqueça de que nesse ano você foi forte e continuou firme apesar de tudo o que não saiu como previa. Eu te digo que ao iniciar dois mil e quinze, você não vai querer se lembrar de dois mil e catorze, mas alguns anos mais tarde esse será o ano que você começou a dar passos para o que eu espero que tenha se tornado. Mais tarde, quando você refletir sobre seus vinte e cinco anos, tenha certeza de que esse ano teve amor, teve lágrimas, teve saudade. Cabe a você lembrar os motivos desses dias – ou no caso, sentimentos -. Eu não escreverei sobre eles aqui. O que eu espero – do fundo do seu coração – é que você não desista. Assim como em nenhum momento desse ano você não desistiu. Não desistiu do seu emprego, da sua faculdade, de acreditar na melhora do seu pai. E mais importante que tudo, você não desistiu de acreditar – e buscar – insistentemente em uma melhora sua. Tenha orgulho disso. Não esqueça de continuar acreditando e escrevendo sobre o amor – independente da idade que tenha, independente dos amores que tenha vivido pra ver dar errado ou certo -. Busque sim um pouco mais de racionalidade para seguir em frente apesar de. Só não se esqueça do que realmente te move. Dos sentimentos que carrega por cada uma das pessoas que passaram pela sua vida. Dois mil e catorze está quase no fim, mas você sabe muito bem pelo que viveu até hoje, que muitas vezes o fim é a possibilidade de um novo começo. Ou de um recomeço, que seja. Ao terminar de ler isso com seus quarenta ou setenta anos, levante-se e faça uma oração, agradeça pelo fim de dois mil e catorze, agradeça pelo (re) começo que ele te proporcionou e pelo amor que sentiu por seus familiares, por seus amigos, por uma pessoa – que eu acredito que nunca se esquecerá realmente -. De resto, escreva sobre dois mil e trinta e nove ou qualquer outro ano. De resto, saia lá fora e aproveite o dia. Afinal, o ano está só terminando uma outra vez.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

MÚSICA E CHAPÉU

Palmital, 14 de dezembro de 2014

Thi, esses dias eu ouvi “Somewhere only we know”. Passava alguma propaganda. Ou algum trailer de filme. Não sei ao certo. A música estava na voz de uma mulher. Descobri depois que se tratava de uma versão cantada pela Lily Allen. Thi, lembrei de você. De vez em sempre eu lembro de você. Seja ouvindo alguma música ou andando por algum lugar novo – onde talvez eu possa esbarrar em você -. Thi, esse ano aconteceu tanta coisa e eu quis em muitos dias ligar o computador e te encontrar do outro lado da tela com alguma palavra doce que faria com que eu me sentisse abraçada. Só que os tempos mudaram. O msn nem existe mais. O Orkut também não. Eu não sei qual meio de comunicação você anda preferindo. E a gente nunca mais se falou. Nem pra falar de saudade. Nem pra dizer que sente falta. Só que sério, eu sinto sua falta, Thi. E eu vou te chamar de Thi porque sempre foi assim entre a gente. Sempre houve uma intimidade de velhos amigos. Sempre houve uma troca muito grande entre a gente. Sabe, eu acho que você foi realmente um dos melhores amigos que tive na vida. Mesmo sem nunca ter te visto. Isso pode te soar estranho, mas é sério. Esses dias eu li o texto “O chapéu e um céu de sentimentos” e há tanto da gente ali. Você se lembra desse texto? Tem quase três anos. O tempo realmente passa rápido. Parece que foi apenas há algumas semanas que você me ensinou a gostar de Zeca Baleiro e Maria Bethânia. Só que faz tempo, Thi. O tempo realmente passa rápido demais por nós. Eu nem sei quanto tempo faz que não te conto sobre meus dias. Sobre meu novo emprego. Meus medos. Ou sobre quem eu amo. Talvez você saiba de algumas coisas acompanhando meus textos. Você sabe o quanto eu sou transparente neles. No fim do ano passado, eu conheci alguém que me encantou tanto, Thi. Tanto! Acho que você gostaria e apoiaria. Talvez, você me ajudasse a ter feito as coisas darem mais certo entre a gente.   Só que não dependia só de mim. É o que a psicóloga diz. Comecei a terapia, Thi. Em meio a uma crise, comecei a procurar algo que se aproximasse o máximo possível de algum tipo de “cura”. Já tem alguns meses. E obviamente descobri o essencial: não existe cura. Existe tempo e é preciso ter paciência. Tem me feito bem. Tem me feito escrever menos. Tem me feito refletir pra caramba. Não é um negócio fácil, é doloroso em boa parte das vezes, mas sei lá, me sinto bem. Aos poucos e numa parte maior do tempo tenho estado mais em paz. Cabelo meio louro, olhos meios claros. Você riria e diria que eu mordi a língua. Só que ficaria feliz ao ver que sorriso eu abria cada vez que eu a encontrava. Eu tenho certeza que você sorriria junto, Thi. Acho que você sorriria também se eu te contasse que me encontrei em outra profissão – que em nada tem a ver com o curso que faço -. Como anda essa cidade com um dos invernos mais frios do Brasil? Seu time tirou a vaga do meu na Libertadores, mas tudo bem, o Tite está voltando. Vi que vai sair um disco com canções inéditas da Cássia. Quero ouvir. Vou me lembrar de você. Pode apostar. Como anda a sua vida? Espero que esteja bem. Espero que leia tudo isso. Espero que não se canse. Ou ache estranho. Não vou me estender muito, só queria que soubesse que dia desses, eu ouvi “Somewhere only we know”, não lembro se fazia sol ou chovia, sei que senti vontade de te escrever. Espero que esteja realmente bem. E se não estiver, que fique. Dias bonitos pela frente, Thi. Se possível, sorria sempre. Se possível, me escreva de volta e me conte dos seus dias, das suas andanças ou só o que achou sobre a versão com a Lily Allen. Eu vou gostar. Eu vou realmente gostar se um dia você voltar.

Com amor,

Camila Aguilera 

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Dia 08

Segunda-feira, 08 de dezembro de 2014. O ano logo acaba. Esse ano. Esse caos. Esse vício de escrever somente se for sobre. Leia ao som do último disco do Charlie Brown Jr. Ou de algum outro disco deles. Só que a gente sabe que só fará sentido se ao ler esse texto a gente ouvir aquela nossa música. Ouvindo Charlie Brown eu vou lembrar da minha adolescência. Você vai lembrar da sua infância. Ou somente de alguns meses do ano passado. É, eu vou lembrar. Hoje. E eu podia te falar sobre os últimos dias, sobre o domingo com meus amigos daqui ou sobre hoje a tarde quando acordei em meio ao som de um trovão. Sabe, eu continuo não gostando deles. Da chuva, sim. Do céu em seus tons de cinza. Eu tirei uma foto pra você ver. A gente continua dividindo o mesmo céu. Só que esse ano alguns quilômetros nos separam. Você podia responder isso dizendo que ano passado nessa data nós também não estávamos dividindo o céu. Só que a gente estava junto de alguma forma. E nós sabemos bem disso. Nós sentimos bem isso. Na foto aparece também as flores da minha avó. Acho que não te falei, mas nunca fui muito de gostar delas. De uns tempos pra cá, as coisas mudaram. Talvez por eu passar menos tempo nessa casa, talvez por só ter resolvido “desperdiçar” mais tempo com a velhinha. Sei que sento e olho ela cuidar das tais plantas. É bonito, sabe? Nem tanto o jardim, mas o sorriso dela. O sorriso dela é realmente bonito. Lindo, eu diria. No mais, os dias vão bem. Você faz falta de vez em quando, mas dezembro está quase terminando. E eu vejo alguns dias, sentimentos ou lembranças ficando cada vez mais distantes. Um dia eu quero poder entender melhor sobre isso. Ou simplesmente deixar pra lá. O ano logo acaba. Esse ano. Esse caos. Tive dias bons. Juro que tive dias – ou seriam momentos? – realmente bons. Leia ao som do último disco do Charlie Brown Jr. Aquele que te dei de presente. Escute aquela música. Aquela que um trecho você colocou de dedicatória de um livro que me presenteou. Um dia, daqui algum tempo, eu volto a escrever sobre a gente. Eu conto nossa história. Eu coloco em um livro ou nesse blog. Escuta a música. Olha pro céu. Aproveite as férias e se cuide. O ano logo acaba. Infelizmente no fim desse eu já sei como a gente começa, como termina e que não estamos longe do fim. Do ano. Da primavera. Da gente.  

Por Camila Aguilera